sábado, 6 de junho de 2009

UM TURCO EM MINHA VIDA

Ele talvez seja um dos últimos ídolos com os quais tenho a honra de conviver ainda. Apesar disso, sempre que penso nele, pesa-me a culpa da minha inaceitável infrequencia. Todas as explicações mundanas não convencem nem a mim mesmo de que isso é normal. Sou traído pelo redemoinho dos compromissos banais, desperdiçando tempo demais com pessoas e coisas que não são tão importantes. Hoje, como várias outras vezes, acordei no meio da noite e de um sonho estranho. Com ele. Nem interessa muito o enredo, o importante é que eu estava lhe prestando uma homenagem, assistindo-lhe numa dificuldade, emprestando-lhe minha visão. Sim, porque ele não a tem mais. Golpe traiçoeiro e implacável de uma vida outrora tão benevolente, foi inacreditavelmente neutralizado por um espírito obstinado e rijo, revertido em exemplo de vida para outros simples mortais. Deus, com certeza, não esperava por essa. Um castigo tão penoso, tão acintosamente desprezado. Como se colocar o filho pequeno ajoelhado no milho por horas e o pequeno passar o tempo cantando ou brincando com os grãos. Muito frustrante, imagino, para o Criador.

Incrível como um sonho nos acorda duplamente. Decidi então, mais uma vez, escrever para purgar minhas falhas. Que a pena me liberte da culpa de não ter nascido para a simples tarefa de compartilhar sentimentos. Sou-lhe grato por tantas coisas. Começarei talvez pela mais importante. Ele gerou a pessoa que ocupou e modelou praticamente toda a primeira metade de minha vida. E que me tornou a pessoa que sou hoje. Não posso deixar de pensar que metade daqueles genes vieram desse filho de imigrantes libaneses, de infância difícil como a maioria deles. Conheci apenas sua mãe, mulher também exemplar, dócil, amorosa, sofrida. Veio de sua terra natal, prometida para o casamento, sem nunca ter visto o futuro marido. Evidente a origem da coragem e têmpera do filho. Por ingrata coincidência, meu primeiro compromisso "social"como namorado foi assistir ao enterro do velho pai/avô. Interessante cronologia. Ele os deixava, eu entrava. Criado então na dificuldade de um vilarejo pobre, sua trajetória é auto-explicativa. Estudou como nenhum dos filhos, contra tudo e todos, culminando com o curso de Direito na USP, retrato da excelência do resultado. Foi abençoado com uma esposa que o completou de maneira cabal. Teve filhos de quem sempre se orgulhou e para quem sempre viveu, sou memória e testemunha viva disso. Trabalhador incansável, por prazer e por destino. Causa de atritos episódicos, detestava ficar longe dele, fosse o lazer qualquer. Político e administrador de vocação intestina, sofreu as injustiças inexoráveis da imaturidade do sistema para com um espírito idealista. Foi um dos exemplares de uma linhagem de grandes homens, que começaram de muito embaixo, recebendo o bastão daquela geração maravilhosa de heróis que chegaram ao país com a roupa do corpo, filhos na mão, coração apertado e a cabeça rodando, mistura louca de medo e esperança. Que abriram o caminho a golpes de foice, sangue, vermes, casebres, febres e muita raça. Pegaram esse bastão e nos entregam em almofadas de veludo, automóveis, casas com piscinas, colégios caros, viagens, enfim coisas que me fazem até envergonhado. Como cobertura de tudo isso, bens e patrimonio que nunca mexemos um dedo para merecer e que às vezes penso não merecermos mesmo. E, acreditem ou não, muitas vezes são fruto de discórdia e desentendimentos por valores ou quinhões.

Como eu dizia sou-lhe grato por muitas coisas. Obrigado por ela. Obrigado pelo carinho de segundo pai que sempre foi para mim. Obrigado pelo esforço hercúleo de formar este patrimonio que hoje tranquiliza sobremaneira a vida de todos, principalmente seu neto. Obrigado pelo exemplo de tenacidade e força que considero impossível de reproduzir. Obrigado finalmente pelo exemplo de bondade, perdoando a ingratidão de quem lhe deve muito. Termino com uma pontinha de inveja de seu filho e de sua assistente/secretária/amiga de todas horas, que conseguem sentir bem menos culpa do que eu.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

BEBÊ CHORÃO

Arthur Schopenhauer dizia que a vida é uma infindável sucessão de longos períodos de sofrimento em busca do desejo, e experiências curtas de prazer dos desejos que foram satisfeitos. A única forma de plenitude total desse desejo estava na Arte, mais especificamente na Música. A outra forma de se livrar deste redemoinho perverso de sofrimento estaria na abolição total do desejo, que seria o Nirvana. Beethoven considerava a música a linguagem de Deus. Monteiro Lobato escreveu, através da sábia Dona Benta em "História do mundo para as crianças", que a humanidade está apenas na sua infância e, como tal, ainda mostra inúmeros moleques de rua, maltrapilhos, valentões, malcriados e incultos, surrando impunemente os mais fracos, brigando entre si de faca e fazendo sua própria lei.

Já falei antes dos meus ídolos. Eis mais alguns deles. Falando coisas que eu gostaria de ter falado. Grandes sacadas. Vamos em frente. Temos então um mundo ainda generalizadamente primitivo com exceções pipocando por todo lado. Temos vida inteligente sim. Música é divino. E só mais uma coisa é divina. O amor. Palavra piegas que banalizou-se na tradução inadequada. Cresci pensando que amor era uma palavra usada apenas entre casais enamorados. Que vergonha dizer eu te amo em qualquer outra ocasião. Recentemente li que a tradução fiel do que Cristo tentou dizer com "amai o próximo como a ti mesmo" significava REALMENTE cuidar, proteger. Não fazer ao outro o que não quiser que seja feito a ti mesmo. Essa é a maior sacada de todas. Sozinha ela resolve tudo. Conserta tudo como por mágica. Pena que não seja fácil. E que todos estejam tão longe desse caminho.

Mas existem toneladas desse amor divino escondidas e fartamente disseminadas entre nós, no nosso dia a dia. Virtualmente todos os habitantes que passaram por este Planeta jovem e fervilhante já experimentaram dele. Pena que a imensa maioria muitas vezes nem se apercebe. Passamos grande parte da vida sem entendê-lo. Alguns felizardos conseguem acordar a tempo e curti-lo um pouco. As próprias donas do dito cujo às vezes não o compreendem. Sentem, passam, mas quase nem percebem. É o amor divino na sua forma mais primitiva, puro, angustiante, gratuito. Pode levar suas donas facilmente à loucura.

Quer saber onde encontrá-lo? Aqui vão algumas dicas :

1. Comece visitando um berçário. Entre no quarto quando for a hora de mamar. Olhe bem no semblante dela.
2. Esgueire-se sorrateiramente à noite na casa de qualquer bebê, observe-a perder o sono e levantar-se de madrugada apenas para ver se ele está respirando.
3. Acompanhe-a a um restaurante. Observe-a perder incontáveis refeições para dar de mamar ou niná-lo para fazê-lo parar de chorar.
4. Comece a ficar mais agressivo. Preste bem atenção no olhar dela quando uma pessoa de idade ou criança insiste em tentar segurar o bebê no colo.
5. Solte-a num shopping ou praia lotada e zombe do esforço hercúleo dela para não perdê-lo de vista.
6. Divirta-se um pouco. Tente brincar com ele tirando-lhe algum brinquedo ou ameaçando dar-lhe alguma coisa e recolhendo em seguida. Tente fazer as pazes com ela depois.
7. Diversão macabra : naquela praia ou shopping lotado, esconda o pivete por trinta minutos. Não tem quem a faça fazer as pazes com você depois disso.

Mas, pra bom entendedor, nada disso é preciso. Apenas olhe para qualquer mãe que observa seu filho, DE QUALQUER IDADE, dormindo. Aquilo é o amor mais puro que você irá encontrar nesta vida.

Este será o meu primeiro dia das mães sem a minha. Estou velho e nunca pensei que fosse chorar por isso. Ainda bem que estava enganado.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A SENHORA DAS MOEDAS

Sinceramente, um rótulo injusto. Quando, há milhares de anos atrás, sua figura surgiu, no platô da curva da minha vida escancarada naquelas cartas de tarô espalhadas sobre a mesa, minha reação não podia ser mais automática : confirmava-se o descrédito que sempre tive em tais procedimentos esotéricos. Mesmo em presença da figura magra, suave e pálida da estudante de Medicina que havia atendido meu pedido a contragosto, explicando que sua habilidade havia sido ensinada por sua avó e que não tinha por hábito utilizá-la com estranhos, mesmo com ela continuando impassível o ritual de abrir as cartas vagarosamente sobre a mesa, não pude deixar de ficar momentaneamente desapontado. Eu estava totalmente embasbacado com o desenrolar do processo até então, quando minha vida tinha sido exposta, resumidamente é claro, mas de maneira inconfundível e clara pelas cartas anteriores. Incrível constatar o aparecimento da figura da Madona, protetora, conselheira, maternal, no limiar da minha vida adulta. Uma criança logo após. E o surgimento da carta negra, a Morte, na metade do platô adulto, me fez sofrer um baque considerável. Aquela estudante de Medicina estava mangando comigo... Não me conhecia quase, apenas um contato superficial recente, por pouquíssimo tempo. Ninguém lhe contara nada de mim, garantiu. Nem idéia de que eu atravessava a fase mais negra da minha ainda jovem vida naquele momento. Ainda assim, quem embaralhou e dispôs as cartas sobre a mesa fui eu mesmo. Aquela nova carta feminina, carta de cunho monetário, material, cheirando ambição e luxúria, certamente me provocou espanto. Não me via, naquele momento, propenso a qualquer ligação com tais atributos.

Hoje sou grato àquela estudante angelical que nunca mais vi. Aquela Senhora das Moedas me fez renascer e voltar à vida. Tinha sido expulso à revelia de uma vida maravilhosa, onde fui conduzido e moldado por mãos sábias e serenas através das intempéries, e estava boiando inerte por águas revoltas. Ela surgiu de repente, improvável, exuberante, paciente, projetando-me, de maneira lenta e inexorável, para uma nova vida de comunhão, parceria, energia e celebração. Nada de ambições fúteis ou ganância inconsequente, como o título poderia pressupor. Apenas uma vida simples e mundana, de busca incessante pelo prazer de viver em toda plenitude. Sem grandes elocubrações mentais, complicadas, maçantes, pesadas. "Keep it simple", divirta-se tanto no excesso como na falta, extraia da matéria apenas o que ela possa prover de felicidade. Ria bastante, da fartura e da desgraça, nunca perca a piada. Mantenha princípios morais sempre, felicidade não existe sem eles. Vivacidade, intensidade, esplendor, simpatia e beleza jamais foram tão bem personificadas. Sempre rainha, acostumada a todas as atenções em qualquer ambiente onde entra, nunca fez disso orgulho tolo. Seu sorriso derrete, seus olhos paralisam, seu brilho ofusca. Durante muito tempo estive incomodado de tê-la a meu lado, quem sou eu para estar com uma mulher tão linda! Longos anos se passaram de fiel e estóica persistência da parte dela até que eu me convencesse que lhe era merecedor. Nem sei se já estou completamente persuadido. Gerou-me duas filhas que a graça de Deus permitiu o quase impossível - melhorar a qualidade materna. Passa pelas dificuldades como se não existissem, raramente perde o bom humor, está sempre pronta para a vida. Em resumo, tudo o que eu precisava daquele momento em diante.

O tarô daquele dia me prometeu tudo isso até agora. Daqui por diante não está mais no trato. Nem senti muito o tempo passar. Deixo nas mãos do meu anjo da guarda. Afinal de contas, ele tem sido perfeito.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

VOADORA

Recebo, como todo mundo, inúmeros e-mails pegajosos sobre amizade e amor. Quase todos de péssimo gosto e enjoativamente pungentes. Geralmente maculam e invertem o objetivo básico a que se propoem de lembrar-nos de nossos instintos e necessidades primordiais. Não consigo "entrar no clima" e me autoflagelar por não conversar mais vezes com meus amigos, dizer-lhes o quanto os amo ou como sinto orgulho de tê-los por perto. Massifica-se mais uma vez um sentimento nobre, puro, especial para quem o experimenta. Amigos são os luxos mais socialmente justos que eu posso pensar. São caríssimos e qualquer molambo pode ter. Aliás, Deus existe, são muito mais comuns e leais entre os menos favorecidos pela sorte pecuniária. O dinheiro é tão traiçoeiramente venenoso que corrói lentamente as correntes de qualquer amizade. Exacerba e expõe a indecência de nossa mesquinharia, de nossa torpeza moral, afastando-nos de valores e princípios que se opoem ao seu ganho desenfreado. Abraham Lincoln é um de meus ídolos, entre outras coisas, pela frase : "O dinheiro é um excelente empregado, mas um péssimo patrão."


Tenho poucos amigos. Ao menos como considero amigos. Existe grande diferença entre convívio social e amizade. Sou avesso a badalações sociais para desespero supremo da patroa. Posso ser facilmente confundido com algum primo distante do Urtigão e já fui insistentemente caracterizado como um ogro anti-social, um Shrek pequeno-burguês contemporâneo. Não sou malcriado ou agressivo ou inadequado, no entanto. Tenho convívio social profissional intenso, o que talvez já me baste. Gosto de jogar conversa fora sem compromisso, mas em doses homeopáticas e seleção cuidadosa dos participantes. Nada mais chato do que ir a qualquer situação social e ter que aturar pessoas inadequadas que nos usam para fazer terapia contando vantagens, mentiras ou que fingem nos apreciar. Acreditem, apesar de toda a minha ogrice, passo por isso mais vezes do que gostaria...


Amizade passa muito pela afinidade. Não precisa tanto de muita convivência, mas muito de empatia. Por motivos vários, converso esporadicamente com meus amigos. Fico sem ver alguns por anos até. Mas é extraordinária a sensação que sinto quando, após anos sem se ver, conversamos como se tivéssemos estado sempre juntos. Como se o tempo nunca tivesse passado. A vida passou, as coisas mudaram, separações, empregos, cidades, filhos, cabelos brancos, flacidez, artrites. Mas ali, dentro de nós, algo que nem nome tem, um elo de ligação metafísico, uma conjunção espiritual de toda uma sequencia de fatos vividos juntos, aflora espontânea e abundante, dando-nos a certeza de que nossa amizade, essa amizade que eu prezo, é atemporal, arraigada, teimosa, poderosa, extremamente compensadora e prazerosa. Poucos, mas bons. Esporádicos, mas valiosos.


Como eu li num desses e-mails : "Amigo não é o cara que te aparta de uma briga, é aquele que chega dando uma voadora..."

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

UMA CLEÓPATRA MODERNA

Ondas vibratórias no olhar ? Ferormônios ? Personalidade magnética ? Macumba ? Qual seria o segredo do poder entorpecedor emanado por certos seres humanos sobre outros inexplicavelmente SUSCETÍVEIS ? Qual receptor externo estaria faltando em Otávio que sobrou em Júlio César e Marco Antonio ? Onde se esconde o alerta de fuga, o reflexo de retirada diante do perigo iminente ? Cadê a adrenalina ?

Ela nasceu em família imigrante "remediada", com conforto acima da média. Linda, cativante, sempre alegre e espevitada. Sua espontaneidade e sinceridade se tornando qualidade principal, apesar dos excessos. Cresceu viçosa por entre travessuras quase sempre impunes e um desinteresse escolar ocioso que descambava frequentemente para o desespero nas provas finais de cada ano. Em qualquer outra cria, tal comportamento teria merecido doses bem mais severas de tortura física e psicológica que as aplicadas no caso. Reza a lenda que sempre foi "a favorita do papai". Evoluiu, graciosa e despreocupada, até o final da adolescência, sempre com fartura de namorados e mimos. Os pais, sempre esperando o momento certo, no qual o fruto começaria a amadurecer, encontrar rumos, encarar a "real life". Porém, o destino não quis assim. Como uma representante legítima dessa categoria de pessoas "magnetizadoras"eis que surge, do nada absoluto, um Dom Quixote destemido, cavalheiro, de amor desbragado, rompedor, prostrado a seus pés, a seu dispor. Ligeiramente mais velho, experiente, exibindo patrimônio aceitável e profissão honesta, enfim, sem críticas salvadoras da catástrofe. Enfrentou a vigorosa e sábia oposição de todas as pessoas com algum resquício de senso, principalmente do pai zeloso, que cheirava a asneira. Combateu todos os argumentos com a precisão do causídico, a energia do amor transbordante e o arrebatamento dos tolos. A jovem princesa, longe de sequer analisar alternativas, ansiosa por passar para a propriedade de um senhor mais promissor, mais abnegado, mais servil, usa de toda a sua experiência em persuadir e facilmente alcança seu objetivo. Cai novamente na cilada da vida fácil de caprichos satisfeitos e procrastinação de responsabilidades. Toma seu marido e sua nova vida com ingenuidade simplória e despreparo consentido. Mora em sua nova casa de bonecas, cheia de brinquedos novos. Rapidamente torna ainda mais real a nova brincadeira e torna-se mãe de duas lindas meninas. Completa o seu conto de fadas. "E foram felizes para sempre..."

Bem, essa é uma outra história. O mundo dela, na verdade, foi mais schopenhaueriano do que ela jamais poderia ter imaginado. Nunca conseguiu recuperar o prejuízo e talvez nunca tenha realmente entendido onde o caminho se bifurcou. A essência da personalidade continua a mesma, embora duramente castigada pela crueldade da vida. Mantém uma postura cronicamente defensiva, com os pêlos eriçados e as unhas constantemente à mostra, acuada pela agressividade do rolo compressor que atropelou seu conto de fadas. Defende heroicamente o que restou dele e dispara sua metralhadora giratória ao menor sinal de ameaça. Ao mesmo tempo, sofre o martírio perpétuo e inconformado da sua certeza de inocencia.

Para o convívio, um pouco difícil às vezes. Mas para a posteridade, uma certeza : ou foi mais corajosa que Cleópatra, ou não conseguiu encontrar uma víbora à mão...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

OS BATISTAS

Tenho três filhos. Todos batizados na religião católica na qual fui criado para orgulho e glória de uma mãe devota e praticante. Hoje em dia essa história de religião tem se tornado cada vez mais confusa e cheia de conflitos, contradições. Pelo menos em minha cabeça. Acho que a religião, com sua nobre função de bússola espiritual, está cada vez mais necessária. Nosso mundinho contemporâneo, como qualquer jovenzinho ao se perceber desabrochando, está cada dia mais insuportavelmente arrogante e malcriado. As pessoas, tragadas por um progresso faz-de-conta maquiado por uma indústria publicitária quase criminosa, estão sendo tangidas para o lado materialista do consumo e do poder numa proporção incompatível com o que se pode considerar como necessidades básicas do ser humano. A rotina diária do indivíduo engloba uma quantidade de trabalho, ou pior, uma quantidade de "stress" quase sempre escrava e prostituída, pensando-se apenas no ganho pecuniário . Pouquíssimos trabalham por amor à arte, ou com prazer. Os sonhos de consumo aumentam em progressão aritmética e cada um deles evolui tecnologicamente em progressão geométrica. A massa acéfala corre atrás e se acaba no redemoinho.
Prato cheio para a religião. Princípios humanitários, orientação filosófica corajosa, norteando as decisões, acalmando a ansiedade, um bálsamo no espírito desanimado pela frustração. Haja vista a cancerosa proliferação das igrejas evangélicas. Berço aconchegante de espíritos mais crédulos, cumpre sua função com eficiência. Se os donos e responsáveis estão milionários, isso já é uma outra discussão. Mas onde entro eu nessa história ? Qual a religião para alguém que precisa de um pouquinho mais de coerência, nexo, explicações lógicas. Sim, um pouco de fé, mas apenas aquele toque final. Sem forçar tanto a barra. Nesse ponto é que a religião católica me confunde e falha. O mundo tecnológico já está muito arraigado dentro de nós, tornando difícil acreditar em toda a parafernália teatral que foi montada desde Constantino e mantida à custa de intimidação e ameaças até hoje. Isso sustentou o catolicismo durante séculos, mas seus dias estão provavelmente contados, a não ser que se baixe um pouco a guarda. Lutero já havia resolvido boa parte da deturpação eclesiástica, ponto para o protestantismo. Falta ainda, a meu ver, um reconhecimento mais humano do entendimento da Bíblia, como um livro escrito por humanos com possibilidade de erros na palavra de Jesus e ainda um reconhecimento da própria possibilidade da humanidade de Jesus. Sim, porque não muda muito, a meu ver, se Jesus é mesmo filho de Deus ou se ele tiver sido apenas o melhor Profeta, ou se mesmo não tiver existido. O que interessa de verdade pra mim é o que ele falou. Eu nunca fui muito praticante, por todos os motivos acima expostos mas, conforme vou ficando mais velho, e também por pensar bastante no redemoinho já referido, vejo-me cada vez mais iluminado pela doutrina desse Homem. Acredito no que ele disse como o caminho para a vida, sem necessidade de acreditar ou não em Deus Pai ou no Espírito Santo. A história da vida dele é muito bonita e vale como tal. Se ele ressucitou, se fez milagres, se está à direita do Pai neste momento, muda pouco para mim. Mostrar que, nesta vida a felicidade está em cuidar do outro como se gostaria que se fosse cuidado e que no amor ao próximo reside o nosso bem estar, me deu um rumo. Dificílimo de seguir, mas ao menos um rumo. Diferente do redemoinho.

Comecei este tema pra falar do batismo e me perdi. Tenho três afilhados de batismo, dois por tabela que considero como próprios e alguns de matrimonio. Senti-me orgulhoso em cada ocasião ao ser convidado, ou ao me casar com a convidada. No entanto, sinto-me confuso. O que , na verdade, sou para eles ? Um segundo pai ? Um orientador espiritual ? Uma fonte de presentes ?
Na verdade, não consegui ser nada disso para nenhum deles. Sou um fracasso até como presenteador, sou péssimo para isso. Detesto rejeição, quero ter sempre a certeza de agradar e, na óbvia dúvida, eu me escondi na ausência. Pobres afilhados, crianças sempre vêem seus padrinhos como o terceiro perfil enumerado e eu fui uma sonora e persistente decepção. Graças à juventude e saúde férrea dos pais, não houve necessidade da primeira função. Como orientador espiritual, também não tenho sido nada dessas coisas, não me sinto à vontade para ficar dando palpites sem ser chamado. Algumas vezes até fui, e, nesse momento, acredito que tentei o meu melhor. Mas foram poucas ocasiões, como diz o ditado da meia idade - é aquela onde achamos que já sabemos tudo mas ninguém nos pergunta nada.
Em suma, estou tentando purgar meus pecados e confessar minhas falhas com essas pobres vítimas. Tenho especial sentimento em relação a um deles, em virtude das contingências da vida terem separado geograficamente nossas famílias e nos afastado bastante. Acompanho notícias do seu desenvolvimento que , felizmente, são as melhores. Estudioso, inteligente, educado, quiçá bem apessoado, por sorte não precisou nada do padrinho ausente.
Termino aqui com uma mensagem a estes jovens de minha grande e pouco demonstrada estima. Quero que saibam que considero-me responsável por vocês, no acaso da necessidade e no limite da minha capacidade. Apesar do comportamento esquizóide, tenham em mim alguém que se orgulha muito de tê-los como afilhados.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

ENOFILIA

Tenho predisposição hereditária para aterosclerose. Porisso costumo, conforme orientação médica e da mídia pseudo-científica formadora de opinião, beber uma taça de vinho, preferencialmente tinto, com alguma frequencia. Acabei de tomar, durante minha frugal refeição noturna, uma dose generosa de um Lambrusco Cella. Espumante italiano adocicado que faz sucesso em cerimônias de casamento de minha cidade natal há alguns anos, é provavelmente execrado por qualquer enófilo com um mínimo de conhecimento da matéria. Por falar nisso:
ENÓLOGO - expert em cultura da vinha e do preparo do vinho, geralmente graduado e trabalhando na fabricação do vinho.
ENÓFILO - qualquer amante e estudioso do vinho.
SOMMELIER - profissional especializado responsável pela adega do restaurante, desde a compra, armazenamento e elaboração da carta de vinhos da casa.
Quase sempre que me encontro em tão nobre objetivo medicinal, vêm-me à cabeça uma questão existencial : Quando termina o prazer dado pelo conhecimento mundano e começa a escravidão do profundo saber ? Explico : a imensa maioria dos vinhos que tomo são absolutamente populares. Divirto-me com e aprecio de verdade quase qualquer Malbec, e virtualmente qualquer tinto francês ou italiano. Nunca provei vinhos cuja garrafa custasse muito dinheiro, e, se o fiz, já não lembro mais. Sou uma completa negação para dizer se é encorpado, frutado, amadeirado, ou para provar o vinho naquele ritual cômico e burlesco a que o garçom atencioso ( ou gozador ) às vezes me obriga. Em suma, todo o prazer que eu possivelmente venha a extrair do ato de tomar um cálice de vinho provém exclusiva e virginalmente do meu PALADAR. O mesmo paladar grosseiro e inculto que me faz apreciar guaraná "diet", paçoca do Francischini, bolo com sorvete, pão chuchado no leite com café. Já o exército de enófilos que se exasperariam com a presença do Cella numa refeição, só sentirão o mesmo prazer genuíno na presença de um Chateauneuf du Pape ou coisa que o valha. Se forem privilegiados com o poder de tê-los sempre à mesa, muito que bem. Se não forem abastados o suficiente, sofrerão as agruras da ocasionalidade. Nesse caso, ciente de que remo contra a maré, enfileiro-me orgulhosamente com a plebe ignara e inculta que se diverte com qualquer besteira.
Provável influência genética. Meu avô paterno, de quem orgulhosamente herdei o nome, escolheu, para sua predileção enofílica, um vinho denominado Particular. Homem pacato e bom, sem ambições financeiras evidentes ( para certo desânimo da esposa voluntariosa ) , ficava absolutamente feliz e pleno com o seu Particular de vez em quando. Chegaram a ter certo conforto material enquanto ele esteve empregado na burocracia ferroviária de então, que o mantinha ocupado com salário satisfatório e paz no espírito para se dedicar à família que ele adorava. Um homem com história de livro. Reza a lenda que seu pai, um italiano de idéias revolucionárias, era anarquista em algum lugar remoto na Itália. Como sua tendência política, embora tão fantástica na teoria quanto sua irmã contemporânea ( marxismo ), foi duramente combatida e reprimida pelo governo vigente em face dos excessos cometidos, ele acabou optando por emigrar ( ou fugir ) para o Brasil no final do século XIX. Deu com os costados no Rio de Janeiro onde, ainda segundo a lenda, em virtude de sua veia aventuresca ou de um sedutor magnetismo pessoal, encantou e foi encantado por uma legítima descendente da egrégia família real dos Orleans e Bragança. Encantou e seduziu, gerando um fruto desejado e proibido no ventre da pobre princesa. Sendo chamado às falas da responsabilidade pela ilustre família , não se furtou ao dever nem ao amor. Assumiria, com imenso prazer, aquela criança e sua adorada mãe. Porém, um detalhe : não se ajoelhava para leis ou compromissos formais. Sua palavra e o acordo firmado no fio do bigode eram as leis de que precisava e que respeitava. Casamento oficial simbolizava tudo aquilo contra o que lutara por toda uma vida. Estupefação geral. Ora, uma descendente real juntada? Amasiada? Nem hoje isso seria admissível. O "imbróglio" se manteve sem que nenhuma das partes cedesse. Conclusão inacreditável : meu bisavô simplesmente ficou com o filho ( ou raptou ) depois de nascido em lugar retirado e se mandou de lá. Veio para a minha atual cidade, onde o criou com o auxílio de uma criada negra, que mais tarde o serviu também como esposa ( sem casamento, lógico ), gerando um segundo filho seu. Assim, meu avô nunca conheceu sua mãe e não teve outros parentes que não o seu meio irmão mulato ( excelente pessoa, também conforme a lenda ).
Voltando pois ao nosso vinho de cada dia. Um belo dia, meu avô recebeu a visita de um parente pouca coisa melhor de vida, que estava recém chegado da Itália. Sabedor da predileção alcoólica do anfitrião, resolveu iniciá-lo na arte da degustação de um vinho de qualidade. Sobraçando uma caixa com três preciosas garrafas de Chianti legítimo, anunciou o presente com pompa. O desafio estava lançado. Chianti contra Particular. Uma barbada.
A visita foi-se embora após algum tempo e uma provável macarronada com porpetas. Não se abriu o vinho naquele momento. Meu avô esperaria uma ocasião mais propícia. Alguns dias depois, minha avó o vê chegar em casa com uma sacola grande e um ar matreiro que ela bem conhecia.
- Mulher, fiz um negocião. Fui lá no armazém e consegui nove garrafas de Particular em troca daquelas três do vinho chique que eu ganhei.