sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Um pensamento solto

Várias vezes já pensei em escrever isto, mas nunca deu certo. Acho que não tenho cacoete mesmo para escrever sempre, tem que estar inspirado e o computador precisa estar por perto. Nem mesmo sei se já não escrevi tudo isso, porque já faz algum tempo que não releio minha caraminholas. Posso até já estar meio gagá e ficar repetindo sempre a mesma história mas, como este blog é apenas minha terapia gratuita, não reclamem. Aqui vai.

Tenho para comigo que Deus fez da vida dos homens apenas uma caminhada. Muitas vezes longa, às vezes curta demais.Um caminho em que ninguém consegue enxergar ao longe, como se estivéssemos em trilhas ao longo de uma densa e alta floresta. A cada trecho, entramos numa encruzilhada, com várias novas opções de trilhas diferentes. Nosso único parâmetro de escolha, naquele momento, é a inclinação que se avista de seu começo. Podemos apenas subir ou descer. Assim nos mantemos enquanto vivendo. A medida em que iniciamos cada trilha escolhida, passamos por locais e sensações variadas, boas e ruins. Evidente que, quanto mais trilhas percorremos, mais experientes ficamos e mais aprendemos sobre nossas escolhas.

Do alto de meus cinquenta e tantos anos, eis o que extraí de minhas trilhas e de observar as trilhas de quem segue próximo a mim. Pra chegar lá em cima, no topo, tem que subir. Ridículo, de tão óbvio, mas é interessante como muita gente, seja por comodismo, seja por não entender, prefere sempre descer. Alguns privilegiados, sabe-se lá por obra de quem, já nascem muito mais perto do topo. Ainda assim, mesmo com pouca subida pela frente, preferem descer. Outros, mais azarados, dão a largada perto do fundo do poço. Uma longa subida, que os desanima logo de saída. Preferem ficar lá por baixo mesmo e, na maioria das vezes, descer até o fim (com altíssima chance de interromper a jornada prematuramente). Quem desce e se arrepende depois, tem que subir o dobro na volta, sofrendo também duplamente, por estarem muito mais velhos e com as pernas cansadas. Muito difícil. Melhor subir enquanto jovens, no vigor da adolescência. Claro que muitos, seja lá de onde partirem, sabem que não se arrependerão da suadeira da escalada. "No pain, no gain", sábias palavras de Ben Franklin (segundo o Google). O topo é um lugar mítico, inalcançável, mas, quanto mais nos aproximamos, mais perto chegamos daquilo que Buda descreveu como Nirvana.

Um dos grandes objetivos desta vida, já o disse, deveria ser o de se tentar prover meios para que nossos descendentes sejam melhores do que nós mesmos. Não existe melhor jeito do que repassar experiência. Meus filhos estão numa fase onde as encruzilhadas lhes chegam a cada trecho muito curto, provocando inúmeras dúvidas e muita insegurança. Cada escolha já feita os ajudarão nas seguintes. Mas ainda faltam muitas à frente. Que eles já tenham entendido que a subida é sempre a melhor escolha. Até o Nirvana.








domingo, 4 de setembro de 2011

Meu abraço masculino (antes tarde do que nunca)

Tive notícias suas recentemente. Novidades, achei que eram só fofocas. Claro que não por seu intermédio, são muito pessoais e você não costuma, desde pequenina, dividir sua intimidade comigo. Minha culpa, eu sei, defeito grave este que eu tenho de não abrir portas para conversas sobre sentimentos, ainda que singelos, como frustrações ou sonhos. Quanto mais dúvidas e reflexões mais perenes, de alcance mais longo. Talvez venha de meus pais, geração menos acostumada ou mesmo pouco preparada para compartilhar tais experiências. De qualquer modo, chegou-me por terceiros. Pouco importa quem, não vamos matar o mensageiro. Importa mais o que significa, o que vai significar para nós e, principalmente para você.

Pensando bem, não se pode dizer que seja surpresa. Você sempre deu a entender que seu caminho não seguia pelo leito do rio, nadando no embalo da correnteza. Quantas vezes tivemos esta conversa. Desnecessário repeti-la. Todos somos iguais na massa, a modelagem é que nos diferencia. Como vimos hoje, os genes sempre serão diferentes entre todos nós. Genes e ambiente. Genótipo e fenótipo. Foi bom estarmos juntos, mais ainda quando eu soube que você sabe que eu já sei. Nada tem que mudar agora, talvez apenas o fato de que você pode ficar mais tranquila. Eu andei lendo literatura pseudo científica a respeito do assunto e parece que existe angústia na dúvida e solidão na certeza. Assim como vai existir uma angústia e uma solidão inicial em nós, na elaboração dos sentimentos, na dificuldade da inexperiência e na sensação de incerteza a respeito do futuro. Todos precisaremos de ajuda. E todos teremos que nos ajudar.

Ainda não consigo deixar de pensar quanto disso é isso mesmo. Você sabe, minha teoria sobre a vida é a de que eu faço tudo e confronto todos para manter minha paz. Sacrifico talvez coisas que outros não o fariam só para não ter que dar explicações ou ouvir críticas. Paz é a minha ideia de felicidade. Críticas são o meu pesadelo. Odeio ser admoestado se estiver errado, por isso tento me manter na linha. Flerto com o asceticismo e amealho o pecúlio cobrado pela sociedade. Admiro Diógenes e abarroto meu guarda roupa de grife. Apenas para não confrontar. Mesmo assim, acabo sempre me envolvendo em discussões teóricas filosóficas estéreis por causa desta eterna contradição. Talvez por sempre desviar de certos princípios apenas para não ter que "ser diferente", sempre achei complicado quem escolhe voluntariamente andar na contra mão, seja nos princípios, seja nas opções de vida. Muito trabalho pro meu gosto. Penso mesmo que não somos dignos de tal poder. Sem maldade, como você diz, acho um pouco até de arrogância. Meio assim, sabe, alguém me fez assim, mas eu não concordo e quero ser assado. E, como temos o poder da escolha, do livre arbítrio, serei como eu quero ser. Talvez eu não concorde porque eu não tenho tanta certeza assim de quem eu sou e o que eu quero tanto ser. Acho mesmo que eu seria qualquer outra coisa se não fosse eu mesmo. Seria negro, esquimó ou mulher, se tivesse assim nascido. E seria até gay, se todo mundo também fosse. Apenas para não confrontar. Apenas não cederia, como não o faço agora, em princípios que considero essenciais, como honestidade, caráter, lealdade, bondade, e respeito ao próximo. Não serei corrupto, arrogante, egoísta, ingrato, perverso e desleal apenas para seguir a maioria. Aí está o meu limite.

Além disso, há perdas consideráveis. Passa-me pela cabeça o que a natureza vai perder. Crescei e multiplicai, foi-nos dito. Ainda na toada anterior, isso é mais ou menos tudo o que viemos fazer aqui. Claro que, se possível, multiplicar com qualidade, passando nossa experiência para os que vierem, para que cresçam e sejam melhores que nós. Fazendo isso, e vivendo em paz, fazendo para os outros apenas aquilo que gostaríamos que os outros fizessem por nós, acho que seremos felizes o que dá pra ser.

Independente do que acontecerá daqui a vinte anos, agora e sempre estaremos juntos. Para leste ou para oeste. Nada deve ser definitivo na sua idade. Nem nunca. Como eu já disse, pouco falta para decidirmos por você, seremos apenas amigos daqui por diante. E amigos, se amigos, apoiam-se mutuamente. Então, se no final essa for mesmo a sua maneira de ser feliz, estaremos juntos torcendo e brigando, remando contra a maré, dando bananas para a torcida. Contanto que você esteja feliz.






















terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A LAMPARINA, A BÚSSOLA E O CAVALO

Tive mais um sonho. Desta vez horrível. Sonhei com a morte. Duas princesas. Dois sonhos diferentes. Acordei em prantos, com ela em meus braços, eu pedindo pra que ela nunca se esquecesse que , bem , deixa pra lá. Não quero começar a chorar de novo.

Tenho três filhos. Piegas falar que são lindos. Mas são. São tudo. Junto com a mãe, ocupam praticamente todo o meu coração. Não tenho outra coisa pra fazer na vida do que cuidar deles. Faço meu papel de pai, oriento, ensino, brigo enquanto há tempo. Tudo pra tentar fazer o caminho mais fácil. Mas, naquela hora, eu tive aquele estalo que me torturou depois de acordado. Você talvez tenha sido um bom pai no quesito educar, orientar, cuidar. Mas você contou pra eles o quanto os ama? Eles sabem disso? Sabem o quanto são importantes pra você, o quanto você tem medo de que algo lhes aconteça, o quanto você tem medo de ficar sem eles? A resposta foi essa. Torturantemente não. Não sei fazer bem isso. Vou fazê-lo sem falta quando o dia raiar, e elas acordarem. Mas tenho certeza que, com o passar do tempo, vou deixar de fazê-lo todos os dias. E então, lá na frente, muito ou pouco, vou me arrepender de novo. Por ter esquecido ou deixado pra outra hora. Então acordei e decidi deixar aqui escrito. Talvez eles nem olhem, com certeza não todos os dias. Mas estará aqui escrito, com medo e lágrimas, vindo do que de melhor existe em mim. Nada nesta vida tem importância maior para mim do que vocês. Posso ter passado a vida fazendo coisas que parecem estar muito distantes disso. Mas podem ter certeza que não. Qualquer coisa que vocês pensarem agora teria sido interrompida imediatamente por um chamado de perigo, de socorro, de ajuda.

O primeiro foi sempre um príncipe. Sangue nobre, educação, estilo, finos modos. Dito assim parece afetado. Mas não. Como a mãe, consegue ser tudo isso de maneira irritantemente natural. Convive com a plebe ignara flatulenta e desbocada sem se contaminar, mas também sem se segregar. Às vezes penso que não tem nada de mim. Nem fico triste porque fez melhor negócio puxando pela mãe. E o mais incrível é que isso aconteceu sem a convivência. Veio no sangue mesmo. Mas, o que de melhor ele recebeu dela foi essa capacidade de detectar caminhos. Enxergar mais longe que os outros, entender de relance cada situação, analisar o que está em cada comportamento, cada reação. E traçar o rumo mais coerente, de mais bom senso. Torna-se aquela pessoa que sempre vale a pena consultar quando se está perdido.

A segunda é a princesa. Na mais pura acepção da palavra. Desperdiçada nessa vida plebéia, assenta-lhe muito melhor um palácio. Linda, iluminada, irradia luz. Perto dela a vida fica essencialmente bela, as coisas são coloridas, o mundo sorri. Não nasceu para ficar triste nem sofrer. Poderia e deveria ter o nome da avó, "alegria da vida". Tenho a certeza de que veio para iluminar o caminho, para mostrar a beleza de tudo. Quem me conhece sabe que isso não veio de mim. Veio também da mãe. Minha concepção pessoal é mais bruta, sou o boi que carrega o arado. Preciso delas para enxergar o belo. Muitas vezes eu não enxergo nem isso direito. Mas elas trazem a alegria em nossas vidas.

A terceira é a guerreira. Forte, companheira, escudeira fiel. Pronta para vencer desafios. Às vezes voluntariosa, impaciente, teimosa. Mas, no fundo, extremamente meiga, preocupada, amorosa. Seu coração é enorme. Sua têmpera é de aço. Sua energia é imensa. Acho que tem um pouco de mim. Pra sua sorte ou azar, não sei. Mas tenham os outros esta certeza. Se um dia vocês estiverem em algum buraco sujo, presos numa armadilha ou afundando em areia movediça, é ela quem vai chegar primeiro, sempre. E é provavelmente ela quem vai tirá-lo de lá.


Meus filhos, não se esqueçam nunca disso. Vocês são minha vida e eu amo muito vocês. Deus há de me dar a graça de sofrer o que senti hoje apenas em sonhos ruins.

domingo, 10 de janeiro de 2010

VALEU A PENA ?

Uma das coisas que me incomoda nesta vida moderna é a quantidade de vezes que nos deparamos com a necessidade de presentear alguém. Durante um ano corrido, a civilização ocidental conhecida nos impinge inúmeras ocasiões nas quais somos compelidos a dar alguma coisa a alguém pela tradição, real ou provocada pela mídia social. Imagine quantas pessoas fazem parte do seu círculo social, próximo e não próximo. Natal, Dia das Mães, dos Pais, das crianças. E todo mundo faz aniversário. E, segundo os costumes, merecem ganhar alguma coisa por isso. Como antigamente ninguém tinha muita coisa, ficava fácil agradar à vítima. Lembro-me de ter ouvido falar de presentes interessantes como uma mala de viagem, guarda-chuva, óculos, uma cama nova, objetos de cozinha e costura, peças de roupas e ferramentas. Tudo agradava numa época em que tais coisas eram raras e caras. Relógios eram muito apreciados pelos que ainda não o tinham. Valia a pena o gasto. Era uma maneira de se dar algo que FALTAVA a alguém.
Hoje a coisa mudou muito. Tais objetos não são considerados presentes, são como obrigações. Neste mundo atual, tornou-se obsoleta a idéia de que alguém, em nosso meio, não tenha um relógio, uma mala, qualquer peça de roupa. Ninguém PRECISA mesmo de nada. Entrou em jogo a idéia, para mim odiosa, da QUANTIDADE, das cores e dos modelos. Variar para agradar. Ou então entrar na dança dos cds, dvds, livros. Quantos cds e dvds você tem ? Quantas vezes você já ouviu cada um deles, se é que já ouviu alguma vez ? Se já, então não leu os livros. Se já também, parabéns. Você é provavelmente um dos meus ídolos que conseguiu se virar na vida sem ter que trabalhar muito. De qualquer maneira, como eu detesto jogar dinheiro fora, já que detesto ter que ganhá-lo, considero um enorme incômodo a obrigação social de comprar alguma coisa para alguém, sabendo que existe uma chance estatisiticamente significativa de que esta pessoa não precise daquilo, já a tenha, ou que não vai lhe ser de utilidade. Provavelmente vai acabar na mão de algum outro incauto na próxima oportunidade. Perco meu tempo tentando ser original e acabo me irritando ou desistindo. Podem me chamar, como vários o fazem, de muquirana, mas eu sei que gosto muito da sensação de dar algo a alguém que precisa. Sobra-me então presentear os menos favorecidos.

Isso pode ser considerado um exemplo cabal da minha teoria sobre a vida moderna. Essa avalanche de estímulos de mídia para o consumo desenfreado. Tudo em nome do ... Do que mesmo ? Para que isso tudo ? Progresso ? Capitalismo ? Alguém, em sã consciência, acredita mesmo que as pessoas estão mais felizes, a medida em que os anos passam ? Eu não tenho mais dúvida que não. Cada dia, cada mês e cada ano que passa eu sinto nitidamente aumentar a quantidade de pessoas ao meu redor desestabilizadas, confusas, perdidas em um redemoinho de pressão social e financeira, comprometendo e mesmo arruinando emocionalmente suas vidas. É uma queixa crescente e de difícil solução. O que aconselhar ? Como se briga com o mundo ?
Lembro-me agora de uma frase de um psicólogo famoso, ouvida há muito tempo atrás, e que nunca me saiu da cabeça. "O mundo atual é um trem em alta velocidade e que aumenta cada vez mais. O que pouca gente percebeu é que este trem não tem maquinista...".
Cinquenta anos se passaram em minha vida e as dúvidas só aumentaram. Existem pessoas que acreditam que tudo se acaba aqui, ao menos para nossa compreensão limitada. Outras, que existe alguma coisa. Paraíso, céu, nirvana, reencarnação. Durante muito tempo eu vivi indiferente. Seja lá o que for, quando chegar o dia eu descubro. Na medida em que o tempo passou e a turma de lá começou a ficar interessante, uma tendência a se acreditar em uma continuação foi aumentando. Assim, o que eu encontro hoje para falar para essas pessoas perdidas e confusas neste trem em disparada é o seguinte. Quando você presenteia alguém com alguma coisa, o que você espera ? Que a pessoa aproveite bem aquele presente, que ele proporcione algum prazer, que lhe dê alguma felicidade, não é ? Nada mais natural. Pois bem, vamos supor que os crédulos tenham razão e algum dia, em alguma hora, você vai chegar na frente do cara que fez tudo isso aqui. Ele vai dizer : Olha, eu te dei uma vida. Um presente. Um corpo, cinco sentidos, saúde por longo tempo, te dei um mundo com ar, água, plantas, árvores, música, chance de correr, rir, amar, ensinar e aprender. O que você fez com isso ? Aproveitou bem ? Foi feliz ? Riu e amou bastante ?

Não passo um dia sequer sem pensar no que vou falar nessa hora.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

FACULDADE NELES

Uma das coisas que a gente costuma sonhar na vida é com a possibilidade de fazer algo grandioso, inventar alguma coisa genial, ser campeão de qualquer esporte, ficar famoso e ser reconhecido por ter melhorado o mundo. Tantas pessoas conseguiram e estes se tornam nossos ídolos. Nunca fiz nada do tipo e, passados os cinquenta, me conformo que nunca o farei. Mas tenho em mente o que teria tentado mudar se mandasse alguma coisa. Na verdade são várias coisas, mas vou falar agora sobre uma delas.
Tenho comigo que o progresso e o desenvolvimento desenfreado de nossa civilização nos trazem conforto e prazer como nunca antes experimentado, mas trazem também mudanças tão traumáticas e intensamente corrosivas para nossas vidas como também jamais nos foi infligido. Nossa evolução tecnológica nos obriga a ficar constantemente ligados e aprendendo novidades. Somos retrógrados, antiquados, dinossauros, se não nos atualizamos. Somos até brindados com escolas, muitas de nível superior, que nos ensinarão, com detalhes, tudo sobre aspectos os mais variados dessa corrida. Desde engenharias várias até coisas triviais como cozinhar, fazer ginástica, fazer massagem. Coisas que, por muito tempo, foram apenas habilidade manual, talento, dom, ensinadas de pai para filho e aprendidas na pura prática, hoje se aprende com detalhes e regras. Treina-se tudo. Para tudo existem estudos, teorias, métodos. Nada contra. Mas determinadas estruturas sociais pré-históricas de nossas vidas curiosamente se mantém à margem dessa fúria metodológica . Durante toda a vida dessa atual civilização três entidades pétreas do relacionamento humano se mantém amadoras, empíricas, ainda aprendidas na raça, no calor da experiência. Pois bem, essa seria minha contribuição para o mundo de hoje - a partir desta data haveria obrigatoriedade irrecusável de se fazer curso superior para as seguintes profissões :

POLÍTICO - desnecessário me alongar muito neste tópico. Auto-explicativo, evidente por si só. Talvez a estrutura social que MENOS tenha se desenvolvido com o passar do tempo. Todos sabem, todos falam, é consenso, mas ninguém se mexe. Continuamos com políticos de péssima formação moral, que corrompem os recém-chegados inebriados com alguma ideologia, esmagando-os com um sistema de cooptação poderoso e hermeticamente fechado. Um sistema que é usado, também com bastante eficiência, em nosso sistema judicial-penitenciário. Quando a gente fica mais velho começa até a pensar em entrar para a política. Muitos dizem que, se os bons não entrarem, ficam só os ruins. Tem lógica, mas prefiro realizar a poda através da capacidade intelectual gerada pelo conhecimento. Se existe uma escola que me tornará um excelente político, por que confiar apenas nos meus belos olhos ? FACULDADE NELES !

MARIDO E MULHER - esse relacionamento, o mais antigo que existe, está evidentemente desmoronando. O índice de separações e a tendência de postergação do casamento entre os jovens mostram que pouca gente mais tem certeza de que quer se casar. Minha opinião vai ainda mais longe. Poucos tem alguma noção, aos vinte anos, do que seja casamento. Medo de perder todas as oportunidades, viajar, namorar quanto puder, ser dono do próprio nariz. Gosto dela mas vou ficar preso. Tanto para se fazer. Gosto dele mas não posso abandonar minha carreira agora.
Nesse aspecto tenho um raciocínio que algumas vão considerar machista. Mas não é. Penso ser apenas realista, constatar os fatos. A nossa vida moderna mudou muita coisa, mas talvez a maior transformação de todas tenha acontecido na vida da mulher. Durante séculos a vida matrimonial foi mantida no ringue dos papéis bem determinados da figura masculina e feminina. Não estou dizendo que era correto, apenas que era determinado. Apesar de muitos defeitos, todos sabiam o que deles era esperado. Geravam muito sofrimento, angústia, frustração. A sociedade machista secular determinava as regras e todos a cumpriam, bem ou mal. Os casamentos duravam até a morte, as crianças se mantinham no clã até criarem as suas próprias famílias e as mulheres se submetiam em benefício do todo. Quando chegavam a velhice comentavam que havia valido a pena o sacrifício, pois seus filhos estavam criados e prontos para o mundo. Nas últimas décadas, muito justamente - imperioso dizer, a mulher perpetrou uma revolução nunca vista nos costumes e na vida social. Reclamou para si o direito sagrado do trabalho, da independência, da vontade, da escolha de seu próprio destino. Saiu detrás do fogão e da máquina de costura para a diretoria e presidência de multinacionais. Está dirigindo caminhões e onibus, motoniveladoras, lutando boxe, nos ministérios, nas fábricas, fazendo negócios, no Congresso, dirigindo os destinos de países como o Chile e a Alemanha, aconselhando o Presidente dos E.U.A. Fizeram um trabalho fantástico. Ainda sentem alguma discriminação, mas tudo ainda é novidade e deve ser apenas resquício de ressentimento e algum grau de ciúme e inveja. Muito bonito. Mas, como tudo tem o seu outro lado, o processo deixou alguns pontos descobertos. Apesar de eternamente desprezada, diminuída pela arrogância masculina de então, o papel da mulher como dona de casa e mãe em tempo integral era absolutamente essencial para os moldes do casamento como o conhecíamos. Tudo na casa girava em torno dela. A essência era ela. O pai era apenas a cereja do bolo, a personificação da lei, da rigidez, da ordem. O afeto, a diligência, os detalhes, a educação, os cuidados de saúde, enfim o AMOR da casa dependia dela. Desculpe minha opinião machista mas, como homem, sempre tive uma ponta de inveja do relacionamento de mãe e filho(a). É muito diferente. Nunca vai ser igual, a não ser que a mulher continue nessa trajetória burra de tornar-se apenas outro pai.
Assim, esta mudança de atitude está criando na estrutura familiar uma certa confusão. Algumas mulheres tentam o impossível. Vida própria, casa, mãe e mulher. Coitadas, tenho uma certa pena, já que sou bastante preguiçoso. É trabalho pra caramba. Resultado ? Tensão, agressão ao organismo, fibromialgia. NOT POSSIBLE, na minha humilde opinião. Outras, inebriadas pela descoberta dessa vida independente, se transformam no segundo homem da casa. E, muitas vezes, melhor que o próprio. Alguns deles, inclusive, se recolhem ao lar trocando REALMENTE de função. Talvez até funcione melhor que as outras opções. Mas o grupo mais encontrado em nossos dias talvez seja aquele no qual existem duas figuras ausentes da casa e da família, estando estas abandonadas à responsabilidade da empregada doméstica, categoria recém promovida a esteio do lar. Infelizmente as domésticas ainda fazem parte das atividades que TAMBÉM não são formadas com faculdade, assim a família continua sem direção adequadamente habilitada. Juntamente com isso, assistimos ao surgimento de uma classe de figuras masculinas TOTALMENTE PERDIDAS com a debandada feminina. Tem marido que apoia irrestritamente, tem marido que chia, poucos ajudam, muitos se assustam e se sentem ameaçados. Quase sem exceção é gerada uma situação altamente instável, fervente, movediça. Afinal, ninguém foi efetivamente treinado ou preparado para isso. Portanto, FACULDADE PARA O CASAMENTO !!
Como ? O que vai ser ensinado ? Como resolver o problema ? Desculpe-me a modéstia, mas acho que sei pelo menos o rumo da solução. Casamento não é uma prisão, um compromisso, uma obrigação. É apenas a celebração da vontade de duas pessoas de ficarem juntas por um tempo infinito enquanto dure. Qualquer que seja a combinação entre elas. Um meio termo equilibrado é possível e desejado. Acho que vai acontecer, com o tempo. Mas depende de um segredo. O segredo é lembrar de uma coisa que estamos esquecendo. De novo o progresso nos dá, a cada dia, a sensação de que podemos tudo. De que podemos estar aqui e ali, fazer de tudo, experimentar de tudo. Realmente, nossas opções aumentaram muito. Mas estamos muito arrogantes. Extrapolamos. Queremos REALMENTE tudo. Pobres de nós. Pobres mortais de ridícula soberba. Podemos trocar de roupa, de carro, de casa e até de país em pouco tempo. Mas estamos irremediavelmente restritos, COMO SEMPRE ESTIVEMOS, a ESCOLHER. Passaremos a vida inteira tendo que escolher nosso destino. e, quando escolhemos um, não temos o outro. É simples assim. Se escolhemos este, não podemos ter o outro. A felicidade está na paz de espírito e a paz está na aceitação da escolha.

PAI/MÃE - consequencia direta do anterior, ser pai atualmente está uma barra. Filhos derivados da família anteriormente descrita, unida ou não, são figuras carentes, inseguras, inacreditavelmente espertas pela infinidade de estímulos sensoriais disponíveis irrestritamente pelos irresponsáveis e cruelmente deixados à deriva em todo o seu processo de formação moral e intelectual. Assistimos ao abandono total da formação do caráter, privilegiando-se o bem material, o prazer, a indolência. Detestam o menor esforço, a menor dificuldade. Caminham acompanhando a boiada barulhenta com rumo totalmente desconhecido. Pelo menos para eles. Chegam a adolescencia com nenhuma noção de vida real, embalados e anestesiados por pais pouco preparados, preocupados apenas com o suporte material, eles também afundados num mar de bossalidade onde grassa a ausência de princípios morais e filosóficos. Nem têm muito o que ensinar, eles que também não foram bem ensinados. Mesmo que tenhamos noção desse cenário, nossos filhos convivem diariamente com esses filhos. Como fazê-los estudar quando os colegas não o fazem ? Como dizer que, quando não mais estiverem conosco, a vida vai maltratá-los se não estiverem preparados ? Como fazê-los entender que esta preparação requer esforço, sacrifício, que nada vem de graça, que o mundo esmaga os fracos, que a vida não é só prazer de se fazer apenas o que se tem vontade ?
Tive um técnico de futebol ainda dente-de-leite que nos dava a camisa e dizia : Vamos lá e dêem o melhor de vocês. Só isso. Muito legal com a gente, mas perdemos quase todos os jogos do campeonato. Penso então no técnico Bernardinho, do vôlei. Sujeito nervoso, a seleção detonando o adversário e ele gritando e brigando com os jogadores. Nunca está satisfeito. Mas ganha quase tudo.
Passei boa parte da minha experiência como pai ouvindo de meus filhos reclamações, queixas de que nunca acho que está bom. Como pai, meus filhos são os melhores do mundo. Eles não acreditam quando falo isso, mas falo de coração aberto. São fantásticos e pobre do pai que pensa diferente. Mas lembro-me de meu pai, que também poucos elogios me fez durante a vida. Ele entendeu, e me ensinou, que não somos apenas pais mas também técnicos. Temos que prepará-los para a vitória. Por mais que soframos com os atritos constantes, não podemos decepcioná-los. Brigaremos até o fim. Quando finalmente eles estiverem lá e nossa missão tiver terminado, teremos a recompensa de poder dizer diariamente a cada um deles como eles são melhores do que nós. Pena que não tive a chance com o meu pai.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O QUE MAIS FAZER, SENÃO AGRADECER O QUE NEM FIZ POR MERECER ?

Às vezes as coisas nos chegam de sopetão, sem que as estejamos esperando, e nos atropelam, batem de frente, fazem a gente pensar "como eu gostaria de ter dito isso ". Li essa frase num e-mail despretensioso, citando um poeta anônimo, de alguém que não mais me detém afinidade. Mas o que tem de simples, de clichê, de piegas, como tantas frases espalhadas pela boca da filosofia cotidiana, teve em mim um efeito imediato. Eu acho isso mesmo ! Eu tenho todo o poder que necessito. Todo o poder que existe para nós mortais. O poder de usar meus cinco sentidos, de andar, correr, comer, beber, rir, amar, repartir, compartilhar, de VIVER. Tudo o que existe para nós é isso. Viver a vida, desviando das armadilhas que, na imensa maioria das vezes, nós mesmos nos colocamos. Volto a citar Schoppenhauer : momentos fugazes de felicidade entremeados por longos períodos de angústia em busca dela. Mas eu vejo o caminho : quanto menos se almeja, quanto menores forem suas ambições, quanto menos seus momentos de felicidade dependerem de fatores como dinheiro, poder, posses, superficialidades obtusas e midiáticas, mais freqüentes os momentos de felicidade. Tantas coisas boas... Faz-me lembrar "Gracias a la vida" cantada por Mercedes Sosa, por si só um grande momento. Músicas que nos marcaram, filmes que nos tocaram, grandes risadas, coisas das quais nos orgulhamos. Momentos solenes, casamento, formatura, o nascimento de nossos filhos, o casamento e a formatura deles. Pequenos grandes marcos em nós. Receber um agradecimento sincero, um elogio, um problema resolvido com habilidade. Um almoço em família, as festas de Natal, os fogos de Ano Novo. O prazer de ser inesperadamente generoso, de ensinar o que se consegue, de acordar no primeiro dia das férias.


Tudo isso DE GRAÇA, na sua fuça, ao seu dispor. E, principalmente, SEM QUE TENHAMOS FEITO ABSOLUTAMENTE NADA PARA MERECER. Foi-nos dado em adiantado, ao nascermos, pacote completo. Tudo o que precisamos fazer é APROVEITAR e deixar claro que valeu a pena o presente.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

CARTA AOS MEUS

Meus queridos :

Estou escrevendo esta carta num momento muito especial. Já de algumas semanas que venho sentindo algo que não acontecia há anos talvez. Estamos num final de semana com feriado prolongado e ficamos todos por aqui. Convivendo, brincando, discutindo um pouco, curtindo um momento especial. Hoje passeamos pela cidade, fazendo coisas, trocando idéias, jogando conversa fora. Pra vocês, talvez, nada de mais. Mas, para mim, um raro prazer.

Há exatos vinte anos meu mundo desmoronou. Como a chuva torrencial na favela que se equilibra no morro, trouxe tudo abaixo. Minha vida de então terminara. Pensei, como é natural, que não teria forças para outra, e, se tivesse, talvez nem valesse a pena. Rolei na lama, esperneei, me arrastei um tempo considerável. Aos poucos, graças à paciência de todos vocês, fui me reerguendo. Cambaleei, reclamei, xinguei, abusei do mau humor. E fomos andando. Retomando a rotina, o trabalho, a vida. Caminhando sempre em frente. Voltei finalmente ao normal. Normal ? Engraçado, agora me dou conta que nenhum de vocês me conheceu antes disso. Meu normal, pra vocês, sempre foi este sujeito meio manco, rabugento, ressabiado, pouco carinhoso. Depressivo principalmente. Chato, na maior parte do tempo. Acreditem, eu mesmo sempre me achei chato. Sempre botando a culpa no fato de ser pai e precisar ensinar os caminhos. Mentira, deve estar cheio de pais por aí que ensinam os caminhos e não são impacientes, mal humorados. Eu sempre senti que havia um pedaço de mim arrancado, e o peso da vida tinha se tornado muito maior. Como se eu precisasse andar sempre arcado. Aliás eu ando mesmo... Assim, eu nunca consegui curtir realmente essa nova vida que eu mesmo procurei.

Então, veio o que eu já contei. Minha mãe morreu, eu fiz cinquenta anos, meu filho vai se formar, começou a namorar, minhas meninas estão se preparando para ir embora. Tudo de uma vez. Era de se esperar uma piora intensa do meu comportamento nauseante, se é que seria possível. Realmente eu entrei num processo meio de crise. Mexeu comigo. Começou com a morte meio sem aviso. Inesperada, porém incrível. Reconheci em minha mãe a mulher de fibra, que começou a vida numa fazenda quase sem recursos, acompanhando o marido numa empreitada hoje longínqua, matando sua própria comida, armazenando em banha de porco, plantando, cozinhando, costurando, criando dois pequenos rebentos e, contra todas as evidências, lecionando para as crianças do local, sua divina vocação. Não presenciei tais fatos, sempre a vi como a senhora elegante e risonha da cidade, já recompensada com o conforto material merecido. Mas ali, deitada em meio a tubos e aparelhos tão necessários quanto odiosos, ela foi admirável. Enfrentou tudo com a serenidade e a altivez de uma rainha. Encheu meu coração de orgulho e de amor. Foi embora como eu gostaria de ir no meu dia. Foi à altura do marido, outro guerreiro. Espero ter herdado a genética.

Comecei então a colocar em prática o que eu escrevi. Reformulei meu trabalho, diminuí muito o que me desgastava. Comecei a tentar ter mais prazer nele. Sempre achei que não seria possível. Confesso que me enganei. Descobri que existe um caminho. Ainda não está ideal, mas consigo vislumbrar a luz. Em pouco tempo eu acho que vou chegar lá. É uma sensação boa. Já não saio de casa arrastado, odiando ter que ir. Estou curtindo algo que não pensei que fosse acontecer mais. Junto vieram muitas outras coisas. Estou me desfazendo de preocupações, poucas propriedades, obrigações. Estamos com planos para novos desafios.

Por último, estou mais em paz comigo mesmo. Há vinte anos fiz uma espécie de pacto com quem quer que estivesse me ouvindo. Já que eu teria que recomeçar, iniciar uma nova vida, que me fosse dada a chance de chegar aos meus cinquenta anos sem grandes sustos, sem desmoronar o meu castelo. Pedi para não sofrer novamente o horror de um projeto ceifado no começo, a deslealdade de uma rasteira por trás, indefensável. Fui atendido com sobras. Não consigo pensar em qualquer detalhe para reclamar. Nem gripe forte, nem caspa, nem unha encravada. Nunca faltou nada, pelo contrário. Nenhum perigo importante, pessoal, profissional, sentimental. Tive tratamento de rei. O melhor anjo da guarda de plantão. Cumpriram com a palavra.

Vem daí o meu momento especial. Mistura maravilhosa de felicidade, paz, serenidade, leveza. Como já nem lembrava que existisse. Maravilhoso e meio assustador. Sinto-me preparado para qualquer coisa, inclusive morrer. Sempre quis ter o privilégio de morrer tranquilo, que me fosse dada a chance de elaborar minha própria morte. Hoje estou perto disso. Sei que posso durar mais uns vinte ou trinta anos, mas gostaria de estar mais ou menos assim quando ela vier.

Quero deixar apenas uma mensagem hoje para vocês quatro. Vocês que foram os responsáveis pela beleza dessa nova vida. Por ter valido tanto a pena tê-la vivido. Por terem finalmente conseguido me dar de volta essa sensação de felicidade. Obrigado por isso. Schopenhauer dizia que a única saída para as frustrações da vida está na beleza das artes, principalmente da música. Eu acho que a saída está apenas na beleza. Não na beleza falsa das luzes de neon, do canto da sereia, do pote no fim do arco-íris. Está na beleza do que é realmente belo, na beleza da coragem da verdade, da luz da sabedoria, da serenidade da honestidade. Está no peito do verdadeiro amigo, na saudade do amor vivido, na cumplicidade do olhar do amor vivente. Na ternura da gratidão e na divindade da humildade. Se vocês se lembrarem de mim só por isso, eu já terei valido a pena.