Meus queridos :
Estou escrevendo esta carta num momento muito especial. Já de algumas semanas que venho sentindo algo que não acontecia há anos talvez. Estamos num final de semana com feriado prolongado e ficamos todos por aqui. Convivendo, brincando, discutindo um pouco, curtindo um momento especial. Hoje passeamos pela cidade, fazendo coisas, trocando idéias, jogando conversa fora. Pra vocês, talvez, nada de mais. Mas, para mim, um raro prazer.
Há exatos vinte anos meu mundo desmoronou. Como a chuva torrencial na favela que se equilibra no morro, trouxe tudo abaixo. Minha vida de então terminara. Pensei, como é natural, que não teria forças para outra, e, se tivesse, talvez nem valesse a pena. Rolei na lama, esperneei, me arrastei um tempo considerável. Aos poucos, graças à paciência de todos vocês, fui me reerguendo. Cambaleei, reclamei, xinguei, abusei do mau humor. E fomos andando. Retomando a rotina, o trabalho, a vida. Caminhando sempre em frente. Voltei finalmente ao normal. Normal ? Engraçado, agora me dou conta que nenhum de vocês me conheceu antes disso. Meu normal, pra vocês, sempre foi este sujeito meio manco, rabugento, ressabiado, pouco carinhoso. Depressivo principalmente. Chato, na maior parte do tempo. Acreditem, eu mesmo sempre me achei chato. Sempre botando a culpa no fato de ser pai e precisar ensinar os caminhos. Mentira, deve estar cheio de pais por aí que ensinam os caminhos e não são impacientes, mal humorados. Eu sempre senti que havia um pedaço de mim arrancado, e o peso da vida tinha se tornado muito maior. Como se eu precisasse andar sempre arcado. Aliás, eu ando mesmo... Assim, eu nunca consegui curtir realmente essa nova vida que eu mesmo procurei.
Então, veio o que eu já contei. Minha mãe morreu, eu fiz cinquenta anos, meu filho vai se formar, começou a namorar, minhas meninas estão se preparando para ir embora. Tudo de uma vez. Era de se esperar uma piora intensa do meu comportamento nauseante, se é que seria possível. Realmente eu entrei num processo meio de crise. Mexeu comigo. Começou com a morte meio sem aviso. Inesperada, porém incrível. Reconheci em minha mãe a mulher de fibra, que começou a vida numa fazenda quase sem recursos, acompanhando o marido numa empreitada hoje longínqua, matando sua própria comida, armazenando em banha de porco, plantando, cozinhando, costurando, criando dois pequenos rebentos e, contra todas as evidências, lecionando para as crianças do local, sua divina vocação. Não presenciei tais fatos, sempre a vi como a senhora elegante e risonha da cidade, já recompensada com o conforto material suado e merecido. Mas ali, deitada em meio a tubos e aparelhos tão necessários quanto odiosos, ela foi admirável. Enfrentou tudo com a serenidade e a altivez de uma rainha. Encheu meu coração de orgulho e de amor. Foi embora como eu gostaria de ir no meu dia. Foi à altura do marido, outro guerreiro. Espero ter herdado a genética.
Comecei então a colocar em prática o que eu escrevi. Reformulei meu trabalho, diminuí muito o que me desgastava. Comecei a tentar ter mais prazer nele. Sempre achei que não seria possível. Confesso que me enganei. Descobri que existe um caminho. Ainda não está ideal, mas consigo vislumbrar a luz. Em pouco tempo eu acho que vou chegar lá. É uma sensação boa. Já não saio de casa arrastado, odiando ter que ir. Estou curtindo algo que não pensei que fosse acontecer mais. Junto vieram muitas outras coisas. Estou me desfazendo de preocupações, poucas propriedades, obrigações. Estamos com planos para novos desafios.
Por último, estou mais em paz comigo mesmo. Há vinte anos fiz uma espécie de pacto com quem quer que estivesse me ouvindo. Já que eu teria que recomeçar, iniciar uma nova vida, que me fosse dada a chance de chegar aos meus cinquenta anos sem grandes sustos, sem desmoronar o meu castelo. Pedi para não sofrer novamente o horror de um projeto ceifado no começo, a deslealdade de uma rasteira por trás, indefensável. Fui atendido com sobras. Não consigo pensar em qualquer detalhe para reclamar. Nem gripe forte, nem caspa, nem unha encravada. Nunca faltou nada, pelo contrário. Nenhum perigo importante, pessoal, profissional, sentimental. Tive tratamento de rei. O melhor anjo da guarda de plantão. Cumpriram com a palavra.
Vem daí o meu momento especial. Mistura maravilhosa de felicidade, paz, serenidade, leveza. Como já nem lembrava que existisse. Maravilhoso e meio assustador. Sinto-me preparado para qualquer coisa, inclusive morrer. Sempre quis ter o privilégio de morrer tranquilo, que me fosse dada a chance de elaborar minha própria morte. Hoje estou perto disso. Sei que posso durar mais uns vinte ou trinta anos, mas gostaria de estar mais ou menos assim quando ela vier.
Quero deixar apenas uma mensagem hoje para vocês quatro. Vocês que foram os responsáveis pela beleza dessa nova vida. Por ter valido tanto a pena tê-la vivido. Por terem finalmente conseguido me dar de volta essa sensação de felicidade. Obrigado por isso. Schopenhauer dizia que a única saída para as frustrações da vida está na beleza das artes, principalmente da música. Eu acho que a saída está apenas na beleza. Não na beleza falsa das luzes de neon, do canto da sereia, do pote no fim do arco-íris. Está na beleza do que é realmente belo, na beleza da coragem da verdade, da luz da sabedoria, da serenidade da honestidade. Está no peito do verdadeiro amigo, na saudade do amor vivido, na cumplicidade do olhar do amor vivente. Na ternura da gratidão e na divindade da humildade. Se vocês se lembrarem de mim só por isso, eu já terei valido a pena.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
domingo, 21 de junho de 2009
LUMIERES
A inspiração para escrever minhas reflexões em forma de blog me foi dada por um de meus sobrinhos. Sujeito capaz, leitor voraz e eclético, tem seus pensamentos espalhados na net já há bem mais tempo. Numa produção muito mais profícua, quase diária mesmo, mistura observações, as mais sortidas, sobre o mundo atual, englobando economia, política e artes, com tocantes desabafos de algumas agruras pessoais, como todos temos. Corajosamente, como aquele que não tem o que temer. Cresce-me o orgulho e a admiração apenas por esse aspecto. Na maioria das vezes, entretanto, destila comentários flamejantes contra governos, instituições e figuras do mundo cosmopolita acrescidos de suas impressões pessoais sempre carregadas de entusiasmo. Não se pode dizer nunca que tenha ficado em cima do muro. Convicções fortes. Preferências marcadas. Quarenta anos antes e provavelmente estaria marchando ou atirando ovos de um lado para outro da Rua Maria Antonia como, reza a lenda, seus pais estiveram. Quem conhece a mãe sabe que ela deve ter ficado mais assistindo, porque correr dos guardas não seria possível. Genético? O interesse pelo saber com certeza. Confesso, no entanto, que meus parcos conhecimentos de atualidades , principalmente políticas, e a crescente falta de interesse em obtê-los, me permite pouquíssimos comentários em suas resenhas. Nenhuma falta faz, pois seus seguidores são inúmeros e fiéis. Mas gostaria de escrever algo a respeito de sua frustração, algo recente, esperando por um herdeiro que nunca vem. Não que eu tenha a solução, quem me dera. Sou, conforme já escrevi, partidário do ditado popular ( anônimo ? ) de se escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho para nos tornarmos completos. Nunca me havia passado pela cabeça a idéia de como seria se não me fosse dado esse privilégio. Sou, como todos os idiotas mortais humanos, pretensioso a ponto de nunca ter pensado seriamente nisso. Já que os tive até precocemente, e tantos são os que os tem até impunemente, poupei-me todo esse tempo de sofrer com a elaboração desta perda. Hoje, pensando em vocês (na sua princesa também, lógico), eu percebi que também teria magoado. Determinadas situações não admitem grandes frases de consolação, ou, pelo menos, não sou competente para arriscar. Ter filhos é um saco ? É, mas também é muito legal. Impossível negar que um casal como vocês seriam pais incomparáveis. Nem vou me meter a dar conselhos. Um sujeito esperto e sagaz como você vai perceber as possibilidades muito antes que eu. Torço apenas para que seja algo que possa ser consertado. Tanta coisa acontecendo nessa área atualmente. Se não, digo-lhe apenas onde me apoiaria, como já me apoiei em situação anterior. Nossa vida não é realmente nossa. Nos foi dada por alguém. Incrivelmente poderoso e, às vezes, incrivelmente cruel. Cabe a nós decidirmos o que fazer com ela. Venha do jeito que vier, temos que nos adaptar. Para o bem ou para o mal. Jogue-se do viaduto ou abra um sorriso e dê um grande beijo nessa mulher fantástica que aconteceu pra você, companheira de tantas aventuras, fiel, amorosa, e que vai aguentar firme o tranco se você aguentar também. Na minha vez eu sofri um tempo, mas resolvi aceitar que alguém manda mais do que eu. Levantei, chacoalhei a poeira e toquei o pau. Metade de mim ficou pra trás, aos pedaços. Mas a vida me deu novas partes e eu continuo indo. Existem milhares de filhos para serem cuidados nesse mundo, sob a forma de pacientes, seguidores de blog, amigos, parentes, mendigos, alunos, ou, porque não, crianças a serem acolhidas. Espere apenas o coração parar de doer. Não se faz nada sob pressão.
Para terminar, não para consolo, deixo algo que ocorreu num destes finais de semana.
Menina linda, dezenove anos, filha de médico em cidade do interior, segundo informações colhidas nunca deu problemas. Para alegria dos pais, passa no vestibular para medicina em outra cidade do interior. Muda-se para lá e, ainda segundo informações fidedignas, frequenta as aulas assiduamente, estudando e dedicando-se com afinco. Já há seis meses na escola, não vai para casa todos os finais de semana. Numa quinta à noite, seguindo a tradição de qualquer estudante universitária, vai com algumas amigas a uma festa numa chácara. Ainda seguindo a tradição, toma mais do que deve, hábito que parece estar cada vez mais arraigado na atual juventude. Pouca noção de limite, é o que se percebe. Começa a rolar na tal chácara uma parada nova, para mim até então desconhecida. Descobriram uma buzina de automóvel ( ou será de moto ? ) que, se destampada, expele uma pequena quantidade de gás com potencial alucinógeno. Quem diria, agora estão cheirando buzina de carro. A garota, talvez já meio alta, cai na bobagem, tão ingênua quanto traiçoeira, de ceder e experimentar. O efeito é imediato e ela desmaia. Os colegas, assustados, tentam reanimá-la e ela parece voltar um pouco a si. Estava viva. Atropeladamente colocaram-na num carro e voaram para chegar rapidamente ao hospital, dez quilômetros dali. Por infelicidade, a jovem estudante, ironicamente de medicina, já chegou sem vida. Todos aceitaram a tese da overdose. Mas, para desespero posterior, a autópsia revelou que ela não havia morrido pela droga. Durante o trajeto, na pressa explicável de se chegar logo ao hospital, ela tinha sido deitada no banco de trás do carro, cabeça para cima. Como tantos ébrios conhecidos, vomitou algo comido naquela festa. Por ação cruel da gravidade, associada a seu estado de torpor acentuado, não teve forças nem reflexo para virar de lado. Aspirou o conteúdo para as vias respiratórias e morreu silenciosamente por asfixia.
Não consigo imaginar porque um pai e uma mãe tenham que passar por isso. Não consigo e não quero me imaginar passando por isso. Sei que o chefe é poderoso e que temos que aceitar o que vier. Mas, algumas vezes, ele exagera.
Para terminar, não para consolo, deixo algo que ocorreu num destes finais de semana.
Menina linda, dezenove anos, filha de médico em cidade do interior, segundo informações colhidas nunca deu problemas. Para alegria dos pais, passa no vestibular para medicina em outra cidade do interior. Muda-se para lá e, ainda segundo informações fidedignas, frequenta as aulas assiduamente, estudando e dedicando-se com afinco. Já há seis meses na escola, não vai para casa todos os finais de semana. Numa quinta à noite, seguindo a tradição de qualquer estudante universitária, vai com algumas amigas a uma festa numa chácara. Ainda seguindo a tradição, toma mais do que deve, hábito que parece estar cada vez mais arraigado na atual juventude. Pouca noção de limite, é o que se percebe. Começa a rolar na tal chácara uma parada nova, para mim até então desconhecida. Descobriram uma buzina de automóvel ( ou será de moto ? ) que, se destampada, expele uma pequena quantidade de gás com potencial alucinógeno. Quem diria, agora estão cheirando buzina de carro. A garota, talvez já meio alta, cai na bobagem, tão ingênua quanto traiçoeira, de ceder e experimentar. O efeito é imediato e ela desmaia. Os colegas, assustados, tentam reanimá-la e ela parece voltar um pouco a si. Estava viva. Atropeladamente colocaram-na num carro e voaram para chegar rapidamente ao hospital, dez quilômetros dali. Por infelicidade, a jovem estudante, ironicamente de medicina, já chegou sem vida. Todos aceitaram a tese da overdose. Mas, para desespero posterior, a autópsia revelou que ela não havia morrido pela droga. Durante o trajeto, na pressa explicável de se chegar logo ao hospital, ela tinha sido deitada no banco de trás do carro, cabeça para cima. Como tantos ébrios conhecidos, vomitou algo comido naquela festa. Por ação cruel da gravidade, associada a seu estado de torpor acentuado, não teve forças nem reflexo para virar de lado. Aspirou o conteúdo para as vias respiratórias e morreu silenciosamente por asfixia.
Não consigo imaginar porque um pai e uma mãe tenham que passar por isso. Não consigo e não quero me imaginar passando por isso. Sei que o chefe é poderoso e que temos que aceitar o que vier. Mas, algumas vezes, ele exagera.
domingo, 7 de junho de 2009
MEIO SÉCULO
É agora ou nunca. Talvez a maturidade nunca chegue para ninguém e ficar esperando pelo futuro seja apenas mais um dos engôdos dessa nossa existência misteriosa. Quanto tempo passado arrastando-se num trabalho monótono, levado apenas pela grana, assistindo-se o horror matinal diário do peso de ter que levantar e ter que fazer tanta coisa que você ABSOLUTAMENTE não tem vontade. Ter que isso, ter que aquilo. Cinquenta anos e você não é dono de seu nariz... Levanta, sai para trabalhar, passa o dia fora, geralmente submetido a agressões emocionais as mais variadas, vendendo sua alma para o DINHEIRO. Contanto que ele venha, quase qualquer coisa vale a pena. Será que é assim que deve ser ? Claro que voltar pra casa e ver uma família maravilhosa compensa muito. Se for mesmo preciso, que assim seja. Mas essa é a dúvida. Precisa ? Cadê o documento assinado por eles no qual consta que eles nos obrigam a fazer o que não gostamos apenas para satisfazermos as suas necessidades pessoais ? Será que eles não prefeririam ter menos, ser menos, apenas para, em troca, terem um pai presente, bem humorado e principalmente feliz ? E o tempo foi passando para mim, eu procrastinei voluntária e covardemente essa resposta por longos anos. Esperando a maturidade que nunca chega. E a vida se esvaindo por entre os dedos. Os cabelos brancos aparecendo. Os músculos se tornando flácidos. Subir a escada já não é tão tranquilo. Todos os dias ir dormir com esse dilema na cabeça. Até quando ? ATÉ QUANDO ??????
Daí minha mãe morreu. Subitamente, inesperadamente, imprevistamente. Ninguém me avisou . NINGUÉM ME AVISOU !!!!!!! Ninguém me avisa nada. E eu percebi que, daqui por diante, somos apenas nós. Minha geração anterior praticamente acabou. Meus pais se foram, agora eu sou o pai dos outros. Entrei na linha de tiro. Sou tronco. Ficar esperto. Tomar cuidado com o vento nas costas, com a osteoporose. Logo, logo, eu estarei frente a frente com o cara que me deu a chance de viver neste mundo e ele vai me perguntar : E aí, gostou ? Valeu a pena ? Aproveitou ? Entendeu o barato da coisa ? E eu vou titubear, dizer que sim, claro, foi maravilhoso. Mas ele não é besta. Quem fez um mundo destes não é besta. Não vou conseguir enganá-lo. Nem eu, nem a imensa maioria dos pobres mortais abobalhados nadando neste mesmo redemoinho. Ninguém entendeu nada. Ou melhor, acho que alguns poucos privilegiados chegaram perto. Mas estão escondidos. Por definição.
Minha ficha começou a cair. Não vou ainda cometer o exagero de apertar o botão de FODA-SE e manter travado. Mas vou mudar. CINQUENTA ANOS apertaram o gatilho. Mexer a bunda já mole. Mudar o trabalho, escrever meu blog, visitar e conversar com os mais velhos, ouvir suas histórias. Olhar para as pessoas. Parar com a pressa. Importar-me menos com o pouco importante. E principalmente ...........
ANDAR MAIS COM MINHA MULHER NA MOTO LEGAL QUE NÓS COMPRAMOS!!!!!!
Daí minha mãe morreu. Subitamente, inesperadamente, imprevistamente. Ninguém me avisou . NINGUÉM ME AVISOU !!!!!!! Ninguém me avisa nada. E eu percebi que, daqui por diante, somos apenas nós. Minha geração anterior praticamente acabou. Meus pais se foram, agora eu sou o pai dos outros. Entrei na linha de tiro. Sou tronco. Ficar esperto. Tomar cuidado com o vento nas costas, com a osteoporose. Logo, logo, eu estarei frente a frente com o cara que me deu a chance de viver neste mundo e ele vai me perguntar : E aí, gostou ? Valeu a pena ? Aproveitou ? Entendeu o barato da coisa ? E eu vou titubear, dizer que sim, claro, foi maravilhoso. Mas ele não é besta. Quem fez um mundo destes não é besta. Não vou conseguir enganá-lo. Nem eu, nem a imensa maioria dos pobres mortais abobalhados nadando neste mesmo redemoinho. Ninguém entendeu nada. Ou melhor, acho que alguns poucos privilegiados chegaram perto. Mas estão escondidos. Por definição.
Minha ficha começou a cair. Não vou ainda cometer o exagero de apertar o botão de FODA-SE e manter travado. Mas vou mudar. CINQUENTA ANOS apertaram o gatilho. Mexer a bunda já mole. Mudar o trabalho, escrever meu blog, visitar e conversar com os mais velhos, ouvir suas histórias. Olhar para as pessoas. Parar com a pressa. Importar-me menos com o pouco importante. E principalmente ...........
ANDAR MAIS COM MINHA MULHER NA MOTO LEGAL QUE NÓS COMPRAMOS!!!!!!
sábado, 6 de junho de 2009
UM TURCO EM MINHA VIDA
Ele talvez seja um dos últimos ídolos com os quais tenho a honra de conviver ainda. Apesar disso, sempre que penso nele, pesa-me a culpa da minha inaceitável infrequencia. Todas as explicações mundanas não convencem nem a mim mesmo de que isso é normal. Sou traído pelo redemoinho dos compromissos banais, desperdiçando tempo demais com pessoas e coisas que não são tão importantes. Hoje, como várias outras vezes, acordei no meio da noite e de um sonho estranho. Com ele. Nem interessa muito o enredo, o importante é que eu estava lhe prestando uma homenagem, assistindo-lhe numa dificuldade, emprestando-lhe minha visão. Sim, porque ele não a tem mais. Golpe traiçoeiro e implacável de uma vida outrora tão benevolente, foi inacreditavelmente neutralizado por um espírito obstinado e rijo, revertido em exemplo de vida para outros simples mortais. Deus, com certeza, não esperava por essa. Um castigo tão penoso, tão acintosamente desprezado. Como se colocar o filho pequeno ajoelhado no milho por horas e o pequeno passar o tempo cantando ou brincando com os grãos. Muito frustrante, imagino, para o Criador.
Incrível como um sonho nos acorda duplamente. Decidi então, mais uma vez, escrever para purgar minhas falhas. Que a pena me liberte da culpa de não ter nascido para a simples tarefa de compartilhar sentimentos. Sou-lhe grato por tantas coisas. Começarei talvez pela mais importante. Ele gerou a pessoa que ocupou e modelou praticamente toda a primeira metade de minha vida. E que me tornou a pessoa que sou hoje. Não posso deixar de pensar que metade daqueles genes vieram desse filho de imigrantes libaneses, de infância difícil como a maioria deles. Conheci apenas sua mãe, mulher também exemplar, dócil, amorosa, sofrida. Veio de sua terra natal, prometida para o casamento, sem nunca ter visto o futuro marido. Evidente a origem da coragem e têmpera do filho. Por ingrata coincidência, meu primeiro compromisso "social"como namorado foi assistir ao enterro do velho pai/avô. Interessante cronologia. Ele os deixava, eu entrava. Criado então na dificuldade de um vilarejo pobre, sua trajetória é auto-explicativa. Estudou como nenhum dos filhos, contra tudo e todos, culminando com o curso de Direito na USP, retrato da excelência do resultado. Foi abençoado com uma esposa que o completou de maneira cabal. Teve filhos de quem sempre se orgulhou e para quem sempre viveu, sou memória e testemunha viva disso. Trabalhador incansável, por prazer e por destino. Causa de atritos episódicos, detestava ficar longe dele, fosse o lazer qualquer. Político e administrador de vocação intestina, sofreu as injustiças inexoráveis da imaturidade do sistema para com um espírito idealista. Foi um dos exemplares de uma linhagem de grandes homens, que começaram de muito embaixo, recebendo o bastão daquela geração maravilhosa de heróis que chegaram ao país com a roupa do corpo, filhos na mão, coração apertado e a cabeça rodando, mistura louca de medo e esperança. Que abriram o caminho a golpes de foice, sangue, vermes, casebres, febres e muita raça. Pegaram esse bastão e nos entregam em almofadas de veludo, automóveis, casas com piscinas, colégios caros, viagens, enfim coisas que me fazem até envergonhado. Como cobertura de tudo isso, bens e patrimonio que nunca mexemos um dedo para merecer e que às vezes penso não merecermos mesmo. E, acreditem ou não, muitas vezes são fruto de discórdia e desentendimentos por valores ou quinhões.
Como eu dizia sou-lhe grato por muitas coisas. Obrigado por ela. Obrigado pelo carinho de segundo pai que sempre foi para mim. Obrigado pelo esforço hercúleo de formar este patrimonio que hoje tranquiliza sobremaneira a vida de todos, principalmente seu neto. Obrigado pelo exemplo de tenacidade e força que considero impossível de reproduzir. Obrigado finalmente pelo exemplo de bondade, perdoando a ingratidão de quem lhe deve muito. Termino com uma pontinha de inveja de seu filho e de sua assistente/secretária/amiga de todas horas, que conseguem sentir bem menos culpa do que eu.
Incrível como um sonho nos acorda duplamente. Decidi então, mais uma vez, escrever para purgar minhas falhas. Que a pena me liberte da culpa de não ter nascido para a simples tarefa de compartilhar sentimentos. Sou-lhe grato por tantas coisas. Começarei talvez pela mais importante. Ele gerou a pessoa que ocupou e modelou praticamente toda a primeira metade de minha vida. E que me tornou a pessoa que sou hoje. Não posso deixar de pensar que metade daqueles genes vieram desse filho de imigrantes libaneses, de infância difícil como a maioria deles. Conheci apenas sua mãe, mulher também exemplar, dócil, amorosa, sofrida. Veio de sua terra natal, prometida para o casamento, sem nunca ter visto o futuro marido. Evidente a origem da coragem e têmpera do filho. Por ingrata coincidência, meu primeiro compromisso "social"como namorado foi assistir ao enterro do velho pai/avô. Interessante cronologia. Ele os deixava, eu entrava. Criado então na dificuldade de um vilarejo pobre, sua trajetória é auto-explicativa. Estudou como nenhum dos filhos, contra tudo e todos, culminando com o curso de Direito na USP, retrato da excelência do resultado. Foi abençoado com uma esposa que o completou de maneira cabal. Teve filhos de quem sempre se orgulhou e para quem sempre viveu, sou memória e testemunha viva disso. Trabalhador incansável, por prazer e por destino. Causa de atritos episódicos, detestava ficar longe dele, fosse o lazer qualquer. Político e administrador de vocação intestina, sofreu as injustiças inexoráveis da imaturidade do sistema para com um espírito idealista. Foi um dos exemplares de uma linhagem de grandes homens, que começaram de muito embaixo, recebendo o bastão daquela geração maravilhosa de heróis que chegaram ao país com a roupa do corpo, filhos na mão, coração apertado e a cabeça rodando, mistura louca de medo e esperança. Que abriram o caminho a golpes de foice, sangue, vermes, casebres, febres e muita raça. Pegaram esse bastão e nos entregam em almofadas de veludo, automóveis, casas com piscinas, colégios caros, viagens, enfim coisas que me fazem até envergonhado. Como cobertura de tudo isso, bens e patrimonio que nunca mexemos um dedo para merecer e que às vezes penso não merecermos mesmo. E, acreditem ou não, muitas vezes são fruto de discórdia e desentendimentos por valores ou quinhões.
Como eu dizia sou-lhe grato por muitas coisas. Obrigado por ela. Obrigado pelo carinho de segundo pai que sempre foi para mim. Obrigado pelo esforço hercúleo de formar este patrimonio que hoje tranquiliza sobremaneira a vida de todos, principalmente seu neto. Obrigado pelo exemplo de tenacidade e força que considero impossível de reproduzir. Obrigado finalmente pelo exemplo de bondade, perdoando a ingratidão de quem lhe deve muito. Termino com uma pontinha de inveja de seu filho e de sua assistente/secretária/amiga de todas horas, que conseguem sentir bem menos culpa do que eu.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
BEBÊ CHORÃO
Arthur Schopenhauer dizia que a vida é uma infindável sucessão de longos períodos de sofrimento em busca do desejo, e experiências curtas de prazer dos desejos que foram satisfeitos. A única forma de plenitude total desse desejo estava na Arte, mais especificamente na Música. A outra forma de se livrar deste redemoinho perverso de sofrimento estaria na abolição total do desejo, que seria o Nirvana. Beethoven considerava a música a linguagem de Deus. Monteiro Lobato escreveu, através da sábia Dona Benta em "História do mundo para as crianças", que a humanidade está apenas na sua infância e, como tal, ainda mostra inúmeros moleques de rua, maltrapilhos, valentões, malcriados e incultos, surrando impunemente os mais fracos, brigando entre si de faca e fazendo sua própria lei.
Já falei antes dos meus ídolos. Eis mais alguns deles. Falando coisas que eu gostaria de ter falado. Grandes sacadas. Vamos em frente. Temos então um mundo ainda generalizadamente primitivo com exceções pipocando por todo lado. Temos vida inteligente sim. Música é divino. E só mais uma coisa é divina. O amor. Palavra piegas que banalizou-se na tradução inadequada. Cresci pensando que amor era uma palavra usada apenas entre casais enamorados. Que vergonha dizer eu te amo em qualquer outra ocasião. Recentemente li que a tradução fiel do que Cristo tentou dizer com "amai o próximo como a ti mesmo" significava REALMENTE cuidar, proteger. Não fazer ao outro o que não quiser que seja feito a ti mesmo. Essa é a maior sacada de todas. Sozinha ela resolve tudo. Conserta tudo como por mágica. Pena que não seja fácil. E que todos estejam tão longe desse caminho.
Mas existem toneladas desse amor divino escondidas e fartamente disseminadas entre nós, no nosso dia a dia. Virtualmente todos os habitantes que passaram por este Planeta jovem e fervilhante já experimentaram dele. Pena que a imensa maioria muitas vezes nem se apercebe. Passamos grande parte da vida sem entendê-lo. Alguns felizardos conseguem acordar a tempo e curti-lo um pouco. As próprias donas do dito cujo às vezes não o compreendem. Sentem, passam, mas quase nem percebem. É o amor divino na sua forma mais primitiva, puro, angustiante, gratuito. Pode levar suas donas facilmente à loucura.
Quer saber onde encontrá-lo? Aqui vão algumas dicas :
1. Comece visitando um berçário. Entre no quarto quando for a hora de mamar. Olhe bem no semblante dela.
2. Esgueire-se sorrateiramente à noite na casa de qualquer bebê, observe-a perder o sono e levantar-se de madrugada apenas para ver se ele está respirando.
3. Acompanhe-a a um restaurante. Observe-a perder incontáveis refeições para dar de mamar ou niná-lo para fazê-lo parar de chorar.
4. Comece a ficar mais agressivo. Preste bem atenção no olhar dela quando uma pessoa de idade ou criança insiste em tentar segurar o bebê no colo.
5. Solte-a num shopping ou praia lotada e zombe do esforço hercúleo dela para não perdê-lo de vista.
6. Divirta-se um pouco. Tente brincar com ele tirando-lhe algum brinquedo ou ameaçando dar-lhe alguma coisa e recolhendo em seguida. Tente fazer as pazes com ela depois.
7. Diversão macabra : naquela praia ou shopping lotado, esconda o pivete por trinta minutos. Não tem quem a faça fazer as pazes com você depois disso.
Mas, pra bom entendedor, nada disso é preciso. Apenas olhe para qualquer mãe que observa seu filho, DE QUALQUER IDADE, dormindo. Aquilo é o amor mais puro que você irá encontrar nesta vida.
Este será o meu primeiro dia das mães sem a minha. Estou velho e nunca pensei que fosse chorar por isso. Ainda bem que estava enganado.
Já falei antes dos meus ídolos. Eis mais alguns deles. Falando coisas que eu gostaria de ter falado. Grandes sacadas. Vamos em frente. Temos então um mundo ainda generalizadamente primitivo com exceções pipocando por todo lado. Temos vida inteligente sim. Música é divino. E só mais uma coisa é divina. O amor. Palavra piegas que banalizou-se na tradução inadequada. Cresci pensando que amor era uma palavra usada apenas entre casais enamorados. Que vergonha dizer eu te amo em qualquer outra ocasião. Recentemente li que a tradução fiel do que Cristo tentou dizer com "amai o próximo como a ti mesmo" significava REALMENTE cuidar, proteger. Não fazer ao outro o que não quiser que seja feito a ti mesmo. Essa é a maior sacada de todas. Sozinha ela resolve tudo. Conserta tudo como por mágica. Pena que não seja fácil. E que todos estejam tão longe desse caminho.
Mas existem toneladas desse amor divino escondidas e fartamente disseminadas entre nós, no nosso dia a dia. Virtualmente todos os habitantes que passaram por este Planeta jovem e fervilhante já experimentaram dele. Pena que a imensa maioria muitas vezes nem se apercebe. Passamos grande parte da vida sem entendê-lo. Alguns felizardos conseguem acordar a tempo e curti-lo um pouco. As próprias donas do dito cujo às vezes não o compreendem. Sentem, passam, mas quase nem percebem. É o amor divino na sua forma mais primitiva, puro, angustiante, gratuito. Pode levar suas donas facilmente à loucura.
Quer saber onde encontrá-lo? Aqui vão algumas dicas :
1. Comece visitando um berçário. Entre no quarto quando for a hora de mamar. Olhe bem no semblante dela.
2. Esgueire-se sorrateiramente à noite na casa de qualquer bebê, observe-a perder o sono e levantar-se de madrugada apenas para ver se ele está respirando.
3. Acompanhe-a a um restaurante. Observe-a perder incontáveis refeições para dar de mamar ou niná-lo para fazê-lo parar de chorar.
4. Comece a ficar mais agressivo. Preste bem atenção no olhar dela quando uma pessoa de idade ou criança insiste em tentar segurar o bebê no colo.
5. Solte-a num shopping ou praia lotada e zombe do esforço hercúleo dela para não perdê-lo de vista.
6. Divirta-se um pouco. Tente brincar com ele tirando-lhe algum brinquedo ou ameaçando dar-lhe alguma coisa e recolhendo em seguida. Tente fazer as pazes com ela depois.
7. Diversão macabra : naquela praia ou shopping lotado, esconda o pivete por trinta minutos. Não tem quem a faça fazer as pazes com você depois disso.
Mas, pra bom entendedor, nada disso é preciso. Apenas olhe para qualquer mãe que observa seu filho, DE QUALQUER IDADE, dormindo. Aquilo é o amor mais puro que você irá encontrar nesta vida.
Este será o meu primeiro dia das mães sem a minha. Estou velho e nunca pensei que fosse chorar por isso. Ainda bem que estava enganado.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
A SENHORA DAS MOEDAS
Sinceramente, um rótulo injusto. Quando, há milhares de anos atrás, sua figura surgiu, no platô da curva da minha vida escancarada naquelas cartas de tarô espalhadas sobre a mesa, minha reação não podia ser mais automática : confirmava-se o descrédito que sempre tive em tais procedimentos esotéricos. Mesmo em presença da figura magra, suave e pálida da estudante de Medicina que havia atendido meu pedido a contragosto, explicando que sua habilidade havia sido ensinada por sua avó e que não tinha por hábito utilizá-la com estranhos, mesmo com ela continuando impassível o ritual de abrir as cartas vagarosamente sobre a mesa, não pude deixar de ficar momentaneamente desapontado. Eu estava totalmente embasbacado com o desenrolar do processo até então, quando minha vida tinha sido exposta, resumidamente é claro, mas de maneira inconfundível e clara pelas cartas anteriores. Incrível constatar o aparecimento da figura da Madona, protetora, conselheira, maternal, no limiar da minha vida adulta. Uma criança logo após. E o surgimento da carta negra, a Morte, na metade do platô adulto, me fez sofrer um baque considerável. Aquela estudante de Medicina estava mangando comigo... Não me conhecia quase, apenas um contato superficial recente, por pouquíssimo tempo. Ninguém lhe contara nada de mim, garantiu. Nem idéia de que eu atravessava a fase mais negra da minha ainda jovem vida naquele momento. Ainda assim, quem embaralhou e dispôs as cartas sobre a mesa fui eu mesmo. Aquela nova carta feminina, carta de cunho monetário, material, cheirando ambição e luxúria, certamente me provocou espanto. Não me via, naquele momento, propenso a qualquer ligação com tais atributos.
Hoje sou grato àquela estudante angelical que nunca mais vi. Aquela Senhora das Moedas me fez renascer e voltar à vida. Tinha sido expulso à revelia de uma vida maravilhosa, onde fui conduzido e moldado por mãos sábias e serenas através das intempéries, e estava boiando inerte por águas revoltas. Ela surgiu de repente, improvável, exuberante, paciente, projetando-me, de maneira lenta e inexorável, para uma nova vida de comunhão, parceria, energia e celebração. Nada de ambições fúteis ou ganância inconsequente, como o título poderia pressupor. Apenas uma vida simples e mundana, de busca incessante pelo prazer de viver em toda plenitude. Sem grandes elocubrações mentais, complicadas, maçantes, pesadas. "Keep it simple", divirta-se tanto no excesso como na falta, extraia da matéria apenas o que ela possa prover de felicidade. Ria bastante, da fartura e da desgraça, nunca perca a piada. Mantenha princípios morais sempre, felicidade não existe sem eles. Vivacidade, intensidade, esplendor, simpatia e beleza jamais foram tão bem personificadas. Sempre rainha, acostumada a todas as atenções em qualquer ambiente onde entra, nunca fez disso orgulho tolo. Seu sorriso derrete, seus olhos paralisam, seu brilho ofusca. Durante muito tempo estive incomodado de tê-la a meu lado, quem sou eu para estar com uma mulher tão linda! Longos anos se passaram de fiel e estóica persistência da parte dela até que eu me convencesse que lhe era merecedor. Nem sei se já estou completamente persuadido. Gerou-me duas filhas que a graça de Deus permitiu o quase impossível - melhorar a qualidade materna. Passa pelas dificuldades como se não existissem, raramente perde o bom humor, está sempre pronta para a vida. Em resumo, tudo o que eu precisava daquele momento em diante.
O tarô daquele dia me prometeu tudo isso até agora. Daqui por diante não está mais no trato. Nem senti muito o tempo passar. Deixo nas mãos do meu anjo da guarda. Afinal de contas, ele tem sido perfeito.
Hoje sou grato àquela estudante angelical que nunca mais vi. Aquela Senhora das Moedas me fez renascer e voltar à vida. Tinha sido expulso à revelia de uma vida maravilhosa, onde fui conduzido e moldado por mãos sábias e serenas através das intempéries, e estava boiando inerte por águas revoltas. Ela surgiu de repente, improvável, exuberante, paciente, projetando-me, de maneira lenta e inexorável, para uma nova vida de comunhão, parceria, energia e celebração. Nada de ambições fúteis ou ganância inconsequente, como o título poderia pressupor. Apenas uma vida simples e mundana, de busca incessante pelo prazer de viver em toda plenitude. Sem grandes elocubrações mentais, complicadas, maçantes, pesadas. "Keep it simple", divirta-se tanto no excesso como na falta, extraia da matéria apenas o que ela possa prover de felicidade. Ria bastante, da fartura e da desgraça, nunca perca a piada. Mantenha princípios morais sempre, felicidade não existe sem eles. Vivacidade, intensidade, esplendor, simpatia e beleza jamais foram tão bem personificadas. Sempre rainha, acostumada a todas as atenções em qualquer ambiente onde entra, nunca fez disso orgulho tolo. Seu sorriso derrete, seus olhos paralisam, seu brilho ofusca. Durante muito tempo estive incomodado de tê-la a meu lado, quem sou eu para estar com uma mulher tão linda! Longos anos se passaram de fiel e estóica persistência da parte dela até que eu me convencesse que lhe era merecedor. Nem sei se já estou completamente persuadido. Gerou-me duas filhas que a graça de Deus permitiu o quase impossível - melhorar a qualidade materna. Passa pelas dificuldades como se não existissem, raramente perde o bom humor, está sempre pronta para a vida. Em resumo, tudo o que eu precisava daquele momento em diante.
O tarô daquele dia me prometeu tudo isso até agora. Daqui por diante não está mais no trato. Nem senti muito o tempo passar. Deixo nas mãos do meu anjo da guarda. Afinal de contas, ele tem sido perfeito.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
VOADORA
Recebo, como todo mundo, inúmeros e-mails pegajosos sobre amizade e amor. Quase todos de péssimo gosto e enjoativamente pungentes. Geralmente maculam e invertem o objetivo básico a que se propoem de lembrar-nos de nossos instintos e necessidades primordiais. Não consigo "entrar no clima" e me autoflagelar por não conversar mais vezes com meus amigos, dizer-lhes o quanto os amo ou como sinto orgulho de tê-los por perto. Massifica-se mais uma vez um sentimento nobre, puro, especial para quem o experimenta. Amigos são os luxos mais socialmente justos que eu posso pensar. São caríssimos e qualquer molambo pode ter. Aliás, Deus existe, são muito mais comuns e leais entre os menos favorecidos pela sorte pecuniária. O dinheiro é tão traiçoeiramente venenoso que corrói lentamente as correntes de qualquer amizade. Exacerba e expõe a indecência de nossa mesquinharia, de nossa torpeza moral, afastando-nos de valores e princípios que se opoem ao seu ganho desenfreado. Abraham Lincoln é um de meus ídolos, entre outras coisas, pela frase : "O dinheiro é um excelente empregado, mas um péssimo patrão."
Tenho poucos amigos. Ao menos como considero amigos. Existe grande diferença entre convívio social e amizade. Sou avesso a badalações sociais para desespero supremo da patroa. Posso ser facilmente confundido com algum primo distante do Urtigão e já fui insistentemente caracterizado como um ogro anti-social, um Shrek pequeno-burguês contemporâneo. Não sou malcriado ou agressivo ou inadequado, no entanto. Tenho convívio social profissional intenso, o que talvez já me baste. Gosto de jogar conversa fora sem compromisso, mas em doses homeopáticas e seleção cuidadosa dos participantes. Nada mais chato do que ir a qualquer situação social e ter que aturar pessoas inadequadas que nos usam para fazer terapia contando vantagens, mentiras ou que fingem nos apreciar. Acreditem, apesar de toda a minha ogrice, passo por isso mais vezes do que gostaria...
Amizade passa muito pela afinidade. Não precisa tanto de muita convivência, mas muito de empatia. Por motivos vários, converso esporadicamente com meus amigos. Fico sem ver alguns por anos até. Mas é extraordinária a sensação que sinto quando, após anos sem se ver, conversamos como se tivéssemos estado sempre juntos. Como se o tempo nunca tivesse passado. A vida passou, as coisas mudaram, separações, empregos, cidades, filhos, cabelos brancos, flacidez, artrites. Mas ali, dentro de nós, algo que nem nome tem, um elo de ligação metafísico, uma conjunção espiritual de toda uma sequencia de fatos vividos juntos, aflora espontânea e abundante, dando-nos a certeza de que nossa amizade, essa amizade que eu prezo, é atemporal, arraigada, teimosa, poderosa, extremamente compensadora e prazerosa. Poucos, mas bons. Esporádicos, mas valiosos.
Como eu li num desses e-mails : "Amigo não é o cara que te aparta de uma briga, é aquele que chega dando uma voadora..."
Tenho poucos amigos. Ao menos como considero amigos. Existe grande diferença entre convívio social e amizade. Sou avesso a badalações sociais para desespero supremo da patroa. Posso ser facilmente confundido com algum primo distante do Urtigão e já fui insistentemente caracterizado como um ogro anti-social, um Shrek pequeno-burguês contemporâneo. Não sou malcriado ou agressivo ou inadequado, no entanto. Tenho convívio social profissional intenso, o que talvez já me baste. Gosto de jogar conversa fora sem compromisso, mas em doses homeopáticas e seleção cuidadosa dos participantes. Nada mais chato do que ir a qualquer situação social e ter que aturar pessoas inadequadas que nos usam para fazer terapia contando vantagens, mentiras ou que fingem nos apreciar. Acreditem, apesar de toda a minha ogrice, passo por isso mais vezes do que gostaria...
Amizade passa muito pela afinidade. Não precisa tanto de muita convivência, mas muito de empatia. Por motivos vários, converso esporadicamente com meus amigos. Fico sem ver alguns por anos até. Mas é extraordinária a sensação que sinto quando, após anos sem se ver, conversamos como se tivéssemos estado sempre juntos. Como se o tempo nunca tivesse passado. A vida passou, as coisas mudaram, separações, empregos, cidades, filhos, cabelos brancos, flacidez, artrites. Mas ali, dentro de nós, algo que nem nome tem, um elo de ligação metafísico, uma conjunção espiritual de toda uma sequencia de fatos vividos juntos, aflora espontânea e abundante, dando-nos a certeza de que nossa amizade, essa amizade que eu prezo, é atemporal, arraigada, teimosa, poderosa, extremamente compensadora e prazerosa. Poucos, mas bons. Esporádicos, mas valiosos.
Como eu li num desses e-mails : "Amigo não é o cara que te aparta de uma briga, é aquele que chega dando uma voadora..."
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