domingo, 10 de janeiro de 2010

VALEU A PENA ?

Uma das coisas que me incomoda nesta vida moderna é a quantidade de vezes que nos deparamos com a necessidade de presentear alguém. Durante um ano corrido, a civilização ocidental conhecida nos impinge inúmeras ocasiões nas quais somos compelidos a dar alguma coisa a alguém pela tradição, real ou provocada pela mídia social. Imagine quantas pessoas fazem parte do seu círculo social, próximo e não próximo. Natal, Dia das Mães, dos Pais, das crianças. E todo mundo faz aniversário. E, segundo os costumes, merecem ganhar alguma coisa por isso. Como antigamente ninguém tinha muita coisa, ficava fácil agradar à vítima. Lembro-me de ter ouvido falar de presentes interessantes como uma mala de viagem, guarda-chuva, óculos, uma cama nova, objetos de cozinha e costura, peças de roupas e ferramentas. Tudo agradava numa época em que tais coisas eram raras e caras. Relógios eram muito apreciados pelos que ainda não o tinham. Valia a pena o gasto. Era uma maneira de se dar algo que FALTAVA a alguém.
Hoje a coisa mudou muito. Tais objetos não são considerados presentes, são como obrigações. Neste mundo atual, tornou-se obsoleta a ideia de que alguém, em nosso meio, não tenha um relógio, uma mala, qualquer peça de roupa. Ninguém PRECISA mesmo de nada. Entrou em jogo a alternativa, para mim odiosa, da QUANTIDADE, das cores e dos modelos. Variar para agradar. Ou então entrar na dança dos cds, dvds, livros. Quantos cds e dvds você tem? Quantas vezes você já ouviu cada um deles, se é que já ouviu alguma vez? Se já, então não leu os livros. Se já também, parabéns. Você é provavelmente um dos meus ídolos que conseguiu se virar na vida sem ter que trabalhar muito. De qualquer maneira, como eu detesto jogar dinheiro fora, já que detesto ter que ganhá-lo, considero um enorme incômodo a obrigação social de comprar alguma coisa para alguém, sabendo que existe uma chance estatisticamente significativa de que esta pessoa não precise daquilo, já a tenha, ou que não vai lhe ser de utilidade. Provavelmente vai acabar na mão de algum outro incauto na próxima oportunidade. Perco meu tempo tentando ser original e acabo me irritando ou desistindo. Podem me chamar, como vários o fazem, de muquirana, mas eu sei que gosto muito da sensação de dar algo a alguém que precisa. Sobra-me então presentear os menos favorecidos.

Isso pode ser considerado um exemplo cabal da minha teoria sobre a vida moderna. Essa avalanche de estímulos de mídia para o consumo desenfreado. Tudo em nome do ... Do que mesmo? Para que isso tudo? Progresso? Capitalismo? Alguém, em sã consciência, acredita mesmo que as pessoas estão mais felizes, a medida em que os anos passam? Eu não tenho mais dúvida que não. Cada dia, cada mês e cada ano que passa eu sinto nitidamente aumentar a quantidade de pessoas ao meu redor desestabilizadas, confusas, perdidas em um redemoinho de pressão social e financeira, comprometendo e mesmo arruinando emocionalmente suas vidas. É uma queixa crescente e de difícil solução. O que aconselhar ? Como se briga com o mundo?
Lembro-me agora de uma frase de um psicólogo famoso, ouvida há muito tempo atrás, e que nunca me saiu da cabeça. "O mundo atual é um trem em alta velocidade e que aumenta cada vez mais. O que pouca gente percebeu é que este trem não tem maquinista...".
Cinquenta anos se passaram em minha vida e as dúvidas só aumentaram. Existem pessoas que acreditam que tudo se acaba aqui, ao menos para nossa compreensão limitada. Outras, que existe alguma coisa. Paraíso, céu, nirvana, reencarnação. Durante muito tempo eu vivi indiferente. Seja lá o que for, quando chegar o dia eu descubro. Na medida em que o tempo passou e a turma de lá começou a ficar interessante, uma tendência a se acreditar em uma continuação foi aumentando. Assim, o que eu encontro hoje para falar para essas pessoas perdidas e confusas neste trem em disparada é o seguinte. Quando você presenteia alguém com alguma coisa, o que você espera ? Que a pessoa aproveite bem aquele presente, que ele proporcione algum prazer, que lhe dê alguma felicidade, não é ? Nada mais natural. Pois bem, vamos supor que os crédulos tenham razão e algum dia, em alguma hora, você vai chegar na frente do cara que fez tudo isso aqui. Ele vai dizer : Olha, eu te dei uma vida. Um presente. Um corpo, cinco sentidos, saúde por longo tempo, te dei um mundo com ar, água, plantas, árvores, música, chance de correr, rir, amar, ensinar e aprender. O que você fez com isso ? Aproveitou bem ? Foi feliz ? Riu e amou bastante ?

Não passo um dia sequer sem pensar no que vou falar nessa hora.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

FACULDADE NELES

Uma das coisas que a gente costuma sonhar na vida é com a possibilidade de fazer algo grandioso, inventar alguma coisa genial, ser campeão de qualquer esporte, ficar famoso e ser reconhecido por ter melhorado o mundo. Tantas pessoas conseguiram e estes se tornam nossos ídolos. Nunca fiz nada do tipo e, passados os cinquenta, me conformo que nunca o farei. Mas tenho em mente o que teria tentado mudar se mandasse alguma coisa. Na verdade são várias coisas, mas vou falar agora sobre uma delas.
Tenho comigo que o progresso e o desenvolvimento desenfreado de nossa civilização nos trazem conforto e prazer como nunca antes experimentado, mas trazem também mudanças tão traumáticas e intensamente corrosivas para nossas vidas como também jamais nos foi infligido. Nossa evolução tecnológica nos obriga a ficar constantemente ligados e aprendendo novidades. Somos retrógrados, antiquados, dinossauros, se não nos atualizamos. Somos até brindados com escolas, muitas de nível superior, que nos ensinarão, com detalhes, tudo sobre aspectos os mais variados dessa corrida. Desde engenharias várias até coisas triviais como cozinhar, fazer ginástica, fazer massagem. Coisas que, por muito tempo, foram apenas habilidade manual, talento, dom, ensinadas de pai para filho e aprendidas na pura prática, hoje se aprende com detalhes e regras. Treina-se tudo. Para tudo existem estudos, teorias, métodos. Nada contra. Mas determinadas estruturas sociais pré-históricas de nossas vidas curiosamente se mantém à margem dessa fúria metodológica . Durante toda a vida dessa atual civilização três entidades pétreas do relacionamento humano se mantém amadoras, empíricas, ainda aprendidas na raça, no calor da experiência. Pois bem, essa seria minha contribuição para o mundo de hoje - a partir desta data haveria obrigatoriedade irrecusável de se fazer curso superior para as seguintes profissões :

POLÍTICO - desnecessário me alongar muito neste tópico. Auto-explicativo, evidente por si só. Talvez a estrutura social que MENOS tenha se desenvolvido com o passar do tempo. Todos sabem, todos falam, é consenso, mas ninguém se mexe. Continuamos com políticos de péssima formação moral, que corrompem os recém-chegados inebriados com alguma ideologia, esmagando-os com um sistema de cooptação poderoso e hermeticamente fechado. Um sistema que é usado, também com bastante eficiência, em nosso sistema judicial-penitenciário. Quando a gente fica mais velho começa até a pensar em entrar para a política. Muitos dizem que, se os bons não entrarem, ficam só os ruins. Tem lógica, mas prefiro realizar a poda através da capacidade intelectual gerada pelo conhecimento. Se existe uma escola que me tornará um excelente político, por que confiar apenas nos meus belos olhos ? FACULDADE NELES !

MARIDO E MULHER - esse relacionamento, o mais antigo que existe, está evidentemente desmoronando. O índice de separações e a tendência de postergação do casamento entre os jovens mostram que pouca gente mais tem certeza de que quer se casar. Minha opinião vai ainda mais longe. Poucos tem alguma noção, aos vinte anos, do que seja casamento. Medo de perder todas as oportunidades, viajar, namorar quanto puder, ser dono do próprio nariz. Gosto dela mas vou ficar preso. Tanto para se fazer. Gosto dele mas não posso abandonar minha carreira agora.
Nesse aspecto tenho um raciocínio que algumas vão considerar machista. Mas não é. Penso ser apenas realista, constatar os fatos. A nossa vida moderna mudou muita coisa, mas talvez a maior transformação de todas tenha acontecido na vida da mulher. Durante séculos a vida matrimonial foi mantida no ringue dos papéis bem determinados da figura masculina e feminina. Não estou dizendo que era correto, apenas que era determinado. Apesar de muitos defeitos, todos sabiam o que deles era esperado. Geravam muito sofrimento, angústia, frustração. A sociedade machista secular determinava as regras e todos a cumpriam, bem ou mal. Os casamentos duravam até a morte, as crianças se mantinham no clã até criarem as suas próprias famílias e as mulheres se submetiam em benefício do todo. Quando chegavam a velhice comentavam que havia valido a pena o sacrifício, pois seus filhos estavam criados e prontos para o mundo. Nas últimas décadas, muito justamente - imperioso dizer, a mulher perpetrou uma revolução nunca vista nos costumes e na vida social. Reclamou para si o direito sagrado do trabalho, da independência, da vontade, da escolha de seu próprio destino. Saiu detrás do fogão e da máquina de costura para a diretoria e presidência de multinacionais. Está dirigindo caminhões e onibus, motoniveladoras, lutando boxe, nos ministérios, nas fábricas, fazendo negócios, no Congresso, dirigindo os destinos de países como o Chile e a Alemanha, aconselhando o Presidente dos E.U.A. Fizeram um trabalho fantástico. Ainda sentem alguma discriminação, mas tudo ainda é novidade e deve ser apenas resquício de ressentimento e algum grau de ciúme e inveja. Muito bonito. Mas, como tudo tem o seu outro lado, o processo deixou alguns pontos descobertos. Apesar de eternamente desprezada, diminuída pela arrogância masculina de então, o papel da mulher como dona de casa e mãe em tempo integral era absolutamente essencial para os moldes do casamento como o conhecíamos. Tudo na casa girava em torno dela. A essência era ela. O pai era apenas a cereja do bolo, a personificação da lei, da rigidez, da ordem. O afeto, a diligência, os detalhes, a educação, os cuidados de saúde, enfim o AMOR da casa dependia dela. Desculpe minha opinião machista mas, como homem, sempre tive uma ponta de inveja do relacionamento de mãe e filho(a). É muito diferente. Nunca vai ser igual, a não ser que a mulher continue nessa trajetória burra de tornar-se apenas outro pai.
Assim, esta mudança de atitude está criando na estrutura familiar uma certa confusão. Algumas mulheres tentam o impossível. Vida própria, casa, mãe e mulher. Coitadas, tenho uma certa pena, já que sou bastante preguiçoso. É trabalho pra caramba. Resultado ? Tensão, agressão ao organismo, fibromialgia. NOT POSSIBLE, na minha humilde opinião. Outras, inebriadas pela descoberta dessa vida independente, se transformam no segundo homem da casa. E, muitas vezes, melhor que o próprio. Alguns deles, inclusive, se recolhem ao lar trocando REALMENTE de função. Talvez até funcione melhor que as outras opções. Mas o grupo mais encontrado em nossos dias talvez seja aquele no qual existem duas figuras ausentes da casa e da família, estando estas abandonadas à responsabilidade da empregada doméstica, categoria recém promovida a esteio do lar. Infelizmente as domésticas ainda fazem parte das atividades que TAMBÉM não são formadas com faculdade, assim a família continua sem direção adequadamente habilitada. Juntamente com isso, assistimos ao surgimento de uma classe de figuras masculinas TOTALMENTE PERDIDAS com a debandada feminina. Tem marido que apoia irrestritamente, tem marido que chia, poucos ajudam, muitos se assustam e se sentem ameaçados. Quase sem exceção é gerada uma situação altamente instável, fervente, movediça. Afinal, ninguém foi efetivamente treinado ou preparado para isso. Portanto, FACULDADE PARA O CASAMENTO !!
Como ? O que vai ser ensinado ? Como resolver o problema ? Desculpe-me a modéstia, mas acho que sei pelo menos o rumo da solução. Casamento não é uma prisão, um compromisso, uma obrigação. É apenas a celebração da vontade de duas pessoas de ficarem juntas por um tempo infinito enquanto dure. Qualquer que seja a combinação entre elas. Um meio termo equilibrado é possível e desejado. Acho que vai acontecer, com o tempo. Mas depende de um segredo. O segredo é lembrar de uma coisa que estamos esquecendo. De novo o progresso nos dá, a cada dia, a sensação de que podemos tudo. De que podemos estar aqui e ali, fazer de tudo, experimentar de tudo. Realmente, nossas opções aumentaram muito. Mas estamos muito arrogantes. Extrapolamos. Queremos REALMENTE tudo. Pobres de nós. Pobres mortais de ridícula soberba. Podemos trocar de roupa, de carro, de casa e até de país em pouco tempo. Mas estamos irremediavelmente restritos, COMO SEMPRE ESTIVEMOS, a ESCOLHER. Passaremos a vida inteira tendo que escolher nosso destino. e, quando escolhemos um, não temos o outro. É simples assim. Se escolhemos este, não podemos ter o outro. A felicidade está na paz de espírito e a paz está na aceitação da escolha.

PAI/MÃE - consequencia direta do anterior, ser pai atualmente está uma barra. Filhos derivados da família anteriormente descrita, unida ou não, são figuras carentes, inseguras, inacreditavelmente espertas pela infinidade de estímulos sensoriais disponíveis irrestritamente pelos irresponsáveis e cruelmente deixados à deriva em todo o seu processo de formação moral e intelectual. Assistimos ao abandono total da formação do caráter, privilegiando-se o bem material, o prazer, a indolência. Detestam o menor esforço, a menor dificuldade. Caminham acompanhando a boiada barulhenta com rumo totalmente desconhecido. Pelo menos para eles. Chegam a adolescencia com nenhuma noção de vida real, embalados e anestesiados por pais pouco preparados, preocupados apenas com o suporte material, eles também afundados num mar de bossalidade onde grassa a ausência de princípios morais e filosóficos. Nem têm muito o que ensinar, eles que também não foram bem ensinados. Mesmo que tenhamos noção desse cenário, nossos filhos convivem diariamente com esses filhos. Como fazê-los estudar quando os colegas não o fazem ? Como dizer que, quando não mais estiverem conosco, a vida vai maltratá-los se não estiverem preparados ? Como fazê-los entender que esta preparação requer esforço, sacrifício, que nada vem de graça, que o mundo esmaga os fracos, que a vida não é só prazer de se fazer apenas o que se tem vontade ?
Tive um técnico de futebol ainda dente-de-leite que nos dava a camisa e dizia : Vamos lá e dêem o melhor de vocês. Só isso. Muito legal com a gente, mas perdemos quase todos os jogos do campeonato. Penso então no técnico Bernardinho, do vôlei. Sujeito nervoso, a seleção detonando o adversário e ele gritando e brigando com os jogadores. Nunca está satisfeito. Mas ganha quase tudo.
Passei boa parte da minha experiência como pai ouvindo de meus filhos reclamações, queixas de que nunca acho que está bom. Como pai, meus filhos são os melhores do mundo. Eles não acreditam quando falo isso, mas falo de coração aberto. São fantásticos e pobre do pai que pensa diferente. Mas lembro-me de meu pai, que também poucos elogios me fez durante a vida. Ele entendeu, e me ensinou, que não somos apenas pais mas também técnicos. Temos que prepará-los para a vitória. Por mais que soframos com os atritos constantes, não podemos decepcioná-los. Brigaremos até o fim. Quando finalmente eles estiverem lá e nossa missão tiver terminado, teremos a recompensa de poder dizer diariamente a cada um deles como eles são melhores do que nós. Pena que não tive a chance com o meu pai.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O QUE MAIS FAZER, SENÃO AGRADECER O QUE NEM FIZ POR MERECER ?

Às vezes as coisas nos chegam de sopetão, sem que as estejamos esperando, e nos atropelam, batem de frente, fazem a gente pensar "como eu gostaria de ter dito isso ". Li essa frase do título num e-mail despretensioso, citando um poeta anônimo, de alguém que não mais me detém afinidade. Mas o que tem de simples, de clichê, de piegas, como tantas frases espalhadas pela boca da filosofia cotidiana, teve em mim um efeito imediato. Eu acho isso mesmo ! Eu tenho todo o poder que necessito. Todo o poder que existe para nós mortais. O poder de usar meus cinco sentidos, de andar, correr, comer, beber, rir, amar, repartir, compartilhar, de VIVER. Tudo o que existe para nós é isso. Viver a vida, desviando das armadilhas que, na imensa maioria das vezes, nós mesmos nos colocamos. Volto a citar Schoppenhauer : momentos fugazes de felicidade entremeados por longos períodos de angústia em busca dela. Mas eu vejo o caminho : quanto menos se almeja, quanto menores forem suas ambições, quanto menos seus momentos de felicidade dependerem de fatores como dinheiro, poder, posses, superficialidades obtusas e midiáticas, mais freqüentes os momentos de felicidade. Tantas coisas boas... Faz-me lembrar "Gracias a la vida" cantada por Mercedes Sosa, por si só um grande momento. Músicas que nos marcaram, filmes que nos tocaram, grandes risadas, coisas das quais nos orgulhamos. Momentos solenes, casamento, formatura, o nascimento de nossos filhos, o casamento e a formatura deles. Pequenos grandes marcos em nós. Receber um agradecimento sincero, um elogio, um problema resolvido com habilidade. Um almoço em família, as festas de Natal, os fogos de Ano Novo. O prazer de ser inesperadamente generoso, de ensinar o que se consegue, de acordar no primeiro dia das férias.


Tudo isso DE GRAÇA, na sua fuça, ao seu dispor. E, principalmente, SEM QUE TENHAMOS FEITO ABSOLUTAMENTE NADA PARA MERECER. Foi-nos dado em adiantado, ao nascermos, pacote completo. Tudo o que precisamos fazer é APROVEITAR e deixar claro que valeu a pena o presente.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

CARTA AOS MEUS

Meus queridos :

Estou escrevendo esta carta num momento muito especial. Já de algumas semanas que venho sentindo algo que não acontecia há anos talvez. Estamos num final de semana com feriado prolongado e ficamos todos por aqui. Convivendo, brincando, discutindo um pouco, curtindo um momento especial. Hoje passeamos pela cidade, fazendo coisas, trocando idéias, jogando conversa fora. Pra vocês, talvez, nada de mais. Mas, para mim, um raro prazer.

Há exatos vinte anos meu mundo desmoronou. Como a chuva torrencial na favela que se equilibra no morro, trouxe tudo abaixo. Minha vida de então terminara. Pensei, como é natural, que não teria forças para outra, e, se tivesse, talvez nem valesse a pena. Rolei na lama, esperneei, me arrastei um tempo considerável. Aos poucos, graças à paciência de todos vocês, fui me reerguendo. Cambaleei, reclamei, xinguei, abusei do mau humor. E fomos andando. Retomando a rotina, o trabalho, a vida. Caminhando sempre em frente. Voltei finalmente ao normal. Normal ? Engraçado, agora me dou conta que nenhum de vocês me conheceu antes disso. Meu normal, pra vocês, sempre foi este sujeito meio manco, rabugento, ressabiado, pouco carinhoso. Depressivo principalmente. Chato, na maior parte do tempo. Acreditem, eu mesmo sempre me achei chato. Sempre botando a culpa no fato de ser pai e precisar ensinar os caminhos. Mentira, deve estar cheio de pais por aí que ensinam os caminhos e não são impacientes, mal humorados. Eu sempre senti que havia um pedaço de mim arrancado, e o peso da vida tinha se tornado muito maior. Como se eu precisasse andar sempre arcado. Aliás, eu ando mesmo... Assim, eu nunca consegui curtir realmente essa nova vida que eu mesmo procurei.
Então, veio o que eu já contei. Minha mãe morreu, eu fiz cinquenta anos, meu filho vai se formar, começou a namorar, minhas meninas estão se preparando para ir embora. Tudo de uma vez. Era de se esperar uma piora intensa do meu comportamento nauseante, se é que seria possível. Realmente eu entrei num processo meio de crise. Mexeu comigo. Começou com a morte meio sem aviso. Inesperada, porém incrível. Reconheci em minha mãe a mulher de fibra, que começou a vida numa fazenda quase sem recursos, acompanhando o marido numa empreitada hoje longínqua, matando sua própria comida, armazenando em banha de porco, plantando, cozinhando, costurando, criando dois pequenos rebentos e, contra todas as evidências, lecionando para as crianças do local, sua divina vocação. Não presenciei tais fatos, sempre a vi como a senhora elegante e risonha da cidade, já recompensada com o conforto material suado e merecido. Mas ali, deitada em meio a tubos e aparelhos tão necessários quanto odiosos, ela foi admirável. Enfrentou tudo com a serenidade e a altivez de uma rainha. Encheu meu coração de orgulho e de amor. Foi embora como eu gostaria de ir no meu dia. Foi à altura do marido, outro guerreiro. Espero ter herdado a genética.
Comecei então a colocar em prática o que eu escrevi. Reformulei meu trabalho, diminuí muito o que me desgastava. Comecei a tentar ter mais prazer nele. Sempre achei que não seria possível. Confesso que me enganei. Descobri que existe um caminho. Ainda não está ideal, mas consigo vislumbrar a luz. Em pouco tempo eu acho que vou chegar lá. É uma sensação boa. Já não saio de casa arrastado, odiando ter que ir. Estou curtindo algo que não pensei que fosse acontecer mais. Junto vieram muitas outras coisas. Estou me desfazendo de preocupações, poucas propriedades, obrigações. Estamos com planos para novos desafios.
Por último, estou mais em paz comigo mesmo. Há vinte anos fiz uma espécie de pacto com quem quer que estivesse me ouvindo. Já que eu teria que recomeçar, iniciar uma nova vida, que me fosse dada a chance de chegar aos meus cinquenta anos sem grandes sustos, sem desmoronar o meu castelo. Pedi para não sofrer novamente o horror de um projeto ceifado no começo, a deslealdade de uma rasteira por trás, indefensável. Fui atendido com sobras. Não consigo pensar em qualquer detalhe para reclamar. Nem gripe forte, nem caspa, nem unha encravada. Nunca faltou nada, pelo contrário. Nenhum perigo importante, pessoal, profissional, sentimental. Tive tratamento de rei. O melhor anjo da guarda de plantão. Cumpriram com a palavra.
Vem daí o meu momento especial. Mistura maravilhosa de felicidade, paz, serenidade, leveza. Como já nem lembrava que existisse. Maravilhoso e meio assustador. Sinto-me preparado para qualquer coisa, inclusive morrer. Sempre quis ter o privilégio de morrer tranquilo, que me fosse dada a chance de elaborar minha própria morte. Hoje estou perto disso. Sei que posso durar mais uns vinte ou trinta anos, mas gostaria de estar mais ou menos assim quando ela vier.
Quero deixar apenas uma mensagem hoje para vocês quatro. Vocês que foram os responsáveis pela beleza dessa nova vida. Por ter valido tanto a pena tê-la vivido. Por terem finalmente conseguido me dar de volta essa sensação de felicidade. Obrigado por isso. Schopenhauer dizia que a única saída para as frustrações da vida está na beleza das artes, principalmente da música. Eu acho que a saída está apenas na beleza. Não na beleza falsa das luzes de neon, do canto da sereia, do pote no fim do arco-íris. Está na beleza do que é realmente belo, na beleza da coragem da verdade, da luz da sabedoria, da serenidade da honestidade. Está no peito do verdadeiro amigo, na saudade do amor vivido, na cumplicidade do olhar do amor vivente. Na ternura da gratidão e na divindade da humildade. Se vocês se lembrarem de mim só por isso, eu já terei valido a pena.

domingo, 21 de junho de 2009

LUMIERES

A inspiração para escrever minhas reflexões em forma de blog me foi dada por um de meus sobrinhos. Sujeito capaz, leitor voraz e eclético, tem seus pensamentos espalhados na net já há bem mais tempo. Numa produção muito mais profícua, quase diária mesmo, mistura observações, as mais sortidas, sobre o mundo atual, englobando economia, política e artes, com tocantes desabafos de algumas agruras pessoais, como todos temos. Corajosamente, como aquele que não tem o que temer. Cresce-me o orgulho e a admiração apenas por esse aspecto. Na maioria das vezes, entretanto, destila comentários flamejantes contra governos, instituições e figuras do mundo cosmopolita acrescidos de suas impressões pessoais sempre carregadas de entusiasmo. Não se pode dizer nunca que tenha ficado em cima do muro. Convicções fortes. Preferências marcadas. Quarenta anos antes e provavelmente estaria marchando ou atirando ovos de um lado para outro da Rua Maria Antonia como, reza a lenda, seus pais estiveram. Quem conhece a mãe sabe que ela deve ter ficado mais assistindo, porque correr dos guardas não seria possível. Genético? O interesse pelo saber com certeza. Confesso, no entanto, que meus parcos conhecimentos de atualidades , principalmente políticas, e a crescente falta de interesse em obtê-los, me permite pouquíssimos comentários em suas resenhas. Nenhuma falta faz, pois seus seguidores são inúmeros e fiéis. Mas gostaria de escrever algo a respeito de sua frustração, algo recente, esperando por um herdeiro que nunca vem. Não que eu tenha a solução, quem me dera. Sou, conforme já escrevi, partidário do ditado popular ( anônimo ? ) de se escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho para nos tornarmos completos. Nunca me havia passado pela cabeça a idéia de como seria se não me fosse dado esse privilégio. Sou, como todos os idiotas mortais humanos, pretensioso a ponto de nunca ter pensado seriamente nisso. Já que os tive até precocemente, e tantos são os que os tem até impunemente, poupei-me todo esse tempo de sofrer com a elaboração desta perda. Hoje, pensando em vocês (na sua princesa também, lógico), eu percebi que também teria magoado. Determinadas situações não admitem grandes frases de consolação, ou, pelo menos, não sou competente para arriscar. Ter filhos é um saco ? É, mas também é muito legal. Impossível negar que um casal como vocês seriam pais incomparáveis. Nem vou me meter a dar conselhos. Um sujeito esperto e sagaz como você vai perceber as possibilidades muito antes que eu. Torço apenas para que seja algo que possa ser consertado. Tanta coisa acontecendo nessa área atualmente. Se não, digo-lhe apenas onde me apoiaria, como já me apoiei em situação anterior. Nossa vida não é realmente nossa. Nos foi dada por alguém. Incrivelmente poderoso e, às vezes, incrivelmente cruel. Cabe a nós decidirmos o que fazer com ela. Venha do jeito que vier, temos que nos adaptar. Para o bem ou para o mal. Jogue-se do viaduto ou abra um sorriso e dê um grande beijo nessa mulher fantástica que aconteceu pra você, companheira de tantas aventuras, fiel, amorosa, e que vai aguentar firme o tranco se você aguentar também. Na minha vez eu sofri um tempo, mas resolvi aceitar que alguém manda mais do que eu. Levantei, chacoalhei a poeira e toquei o pau. Metade de mim ficou pra trás, aos pedaços. Mas a vida me deu novas partes e eu continuo indo. Existem milhares de filhos para serem cuidados nesse mundo, sob a forma de pacientes, seguidores de blog, amigos, parentes, mendigos, alunos, ou, porque não, crianças a serem acolhidas. Espere apenas o coração parar de doer. Não se faz nada sob pressão.



Para terminar, não para consolo, deixo algo que ocorreu num destes finais de semana.


Menina linda, dezenove anos, filha de médico em cidade do interior, segundo informações colhidas nunca deu problemas. Para alegria dos pais, passa no vestibular para medicina em outra cidade do interior. Muda-se para lá e, ainda segundo informações fidedignas, frequenta as aulas assiduamente, estudando e dedicando-se com afinco. Já há seis meses na escola, não vai para casa todos os finais de semana. Numa quinta à noite, seguindo a tradição de qualquer estudante universitária, vai com algumas amigas a uma festa numa chácara. Ainda seguindo a tradição, toma mais do que deve, hábito que parece estar cada vez mais arraigado na atual juventude. Pouca noção de limite, é o que se percebe. Começa a rolar na tal chácara uma parada nova, para mim até então desconhecida. Descobriram uma buzina de automóvel ( ou será de moto ? ) que, se destampada, expele uma pequena quantidade de gás com potencial alucinógeno. Quem diria, agora estão cheirando buzina de carro. A garota, talvez já meio alta, cai na bobagem, tão ingênua quanto traiçoeira, de ceder e experimentar. O efeito é imediato e ela desmaia. Os colegas, assustados, tentam reanimá-la e ela parece voltar um pouco a si. Estava viva. Atropeladamente colocaram-na num carro e voaram para chegar rapidamente ao hospital, dez quilômetros dali. Por infelicidade, a jovem estudante, ironicamente de medicina, já chegou sem vida. Todos aceitaram a tese da overdose. Mas, para desespero posterior, a autópsia revelou que ela não havia morrido pela droga. Durante o trajeto, na pressa explicável de se chegar logo ao hospital, ela tinha sido deitada no banco de trás do carro, cabeça para cima. Como tantos ébrios conhecidos, vomitou algo comido naquela festa. Por ação cruel da gravidade, associada a seu estado de torpor acentuado, não teve forças nem reflexo para virar de lado. Aspirou o conteúdo para as vias respiratórias e morreu silenciosamente por asfixia.


Não consigo imaginar porque um pai e uma mãe tenham que passar por isso. Não consigo e não quero me imaginar passando por isso. Sei que o chefe é poderoso e que temos que aceitar o que vier. Mas, algumas vezes, ele exagera.

domingo, 7 de junho de 2009

MEIO SÉCULO

É agora ou nunca. Talvez a maturidade nunca chegue para ninguém e ficar esperando pelo futuro seja apenas mais um dos engôdos dessa nossa existência misteriosa. Quanto tempo passado arrastando-se num trabalho monótono, levado apenas pela grana, assistindo-se o horror matinal diário do peso de ter que levantar e ter que fazer tanta coisa que você ABSOLUTAMENTE não tem vontade. Ter que isso, ter que aquilo. Cinquenta anos e você não é dono de seu nariz... Levanta, sai para trabalhar, passa o dia fora, geralmente submetido a agressões emocionais as mais variadas, vendendo sua alma para o DINHEIRO. Contanto que ele venha, quase qualquer coisa vale a pena. Será que é assim que deve ser ? Claro que voltar pra casa e ver uma família maravilhosa compensa muito. Se for mesmo preciso, que assim seja. Mas essa é a dúvida. Precisa ? Cadê o documento assinado por eles no qual consta que eles nos obrigam a fazer o que não gostamos apenas para satisfazermos as suas necessidades pessoais ? Será que eles não prefeririam ter menos, ser menos, apenas para, em troca, terem um pai presente, bem humorado e principalmente feliz ? E o tempo foi passando para mim, eu procrastinei voluntária e covardemente essa resposta por longos anos. Esperando a maturidade que nunca chega. E a vida se esvaindo por entre os dedos. Os cabelos brancos aparecendo. Os músculos se tornando flácidos. Subir a escada já não é tão tranquilo. Todos os dias ir dormir com esse dilema na cabeça. Até quando ? ATÉ QUANDO ??????

Daí minha mãe morreu. Subitamente, inesperadamente, imprevistamente. Ninguém me avisou . NINGUÉM ME AVISOU !!!!!!! Ninguém me avisa nada. E eu percebi que, daqui por diante, somos apenas nós. Minha geração anterior praticamente acabou. Meus pais se foram, agora eu sou o pai dos outros. Entrei na linha de tiro. Sou tronco. Ficar esperto. Tomar cuidado com o vento nas costas, com a osteoporose. Logo, logo, eu estarei frente a frente com o cara que me deu a chance de viver neste mundo e ele vai me perguntar : E aí, gostou ? Valeu a pena ? Aproveitou ? Entendeu o barato da coisa ? E eu vou titubear, dizer que sim, claro, foi maravilhoso. Mas ele não é besta. Quem fez um mundo destes não é besta. Não vou conseguir enganá-lo. Nem eu, nem a imensa maioria dos pobres mortais abobalhados nadando neste mesmo redemoinho. Ninguém entendeu nada. Ou melhor, acho que alguns poucos privilegiados chegaram perto. Mas estão escondidos. Por definição.

Minha ficha começou a cair. Não vou ainda cometer o exagero de apertar o botão de FODA-SE e manter travado. Mas vou mudar. CINQUENTA ANOS apertaram o gatilho. Mexer a bunda já mole. Mudar o trabalho, escrever meu blog, visitar e conversar com os mais velhos, ouvir suas histórias. Olhar para as pessoas. Parar com a pressa. Importar-me menos com o pouco importante. E principalmente ...........

ANDAR MAIS COM MINHA MULHER NA MOTO LEGAL QUE NÓS COMPRAMOS!!!!!!

sábado, 6 de junho de 2009

UM TURCO EM MINHA VIDA

Ele talvez seja um dos últimos ídolos com os quais tenho a honra de conviver ainda. Apesar disso, sempre que penso nele, pesa-me a culpa da minha inaceitável infrequencia. Todas as explicações mundanas não convencem nem a mim mesmo de que isso é normal. Sou traído pelo redemoinho dos compromissos banais, desperdiçando tempo demais com pessoas e coisas que não são tão importantes. Hoje, como várias outras vezes, acordei no meio da noite e de um sonho estranho. Com ele. Nem interessa muito o enredo, o importante é que eu estava lhe prestando uma homenagem, assistindo-lhe numa dificuldade, emprestando-lhe minha visão. Sim, porque ele não a tem mais. Golpe traiçoeiro e implacável de uma vida outrora tão benevolente, foi inacreditavelmente neutralizado por um espírito obstinado e rijo, revertido em exemplo de vida para outros simples mortais. Deus, com certeza, não esperava por essa. Um castigo tão penoso, tão acintosamente desprezado. Como se colocar o filho pequeno ajoelhado no milho por horas e o pequeno passar o tempo cantando ou brincando com os grãos. Muito frustrante, imagino, para o Criador.

Incrível como um sonho nos acorda duplamente. Decidi então, mais uma vez, escrever para purgar minhas falhas. Que a pena me liberte da culpa de não ter nascido para a simples tarefa de compartilhar sentimentos. Sou-lhe grato por tantas coisas. Começarei talvez pela mais importante. Ele gerou a pessoa que ocupou e modelou praticamente toda a primeira metade de minha vida. E que me tornou a pessoa que sou hoje. Não posso deixar de pensar que metade daqueles genes vieram desse filho de imigrantes libaneses, de infância difícil como a maioria deles. Conheci apenas sua mãe, mulher também exemplar, dócil, amorosa, sofrida. Veio de sua terra natal, prometida para o casamento, sem nunca ter visto o futuro marido. Evidente a origem da coragem e têmpera do filho. Por ingrata coincidência, meu primeiro compromisso "social"como namorado foi assistir ao enterro do velho pai/avô. Interessante cronologia. Ele os deixava, eu entrava. Criado então na dificuldade de um vilarejo pobre, sua trajetória é auto-explicativa. Estudou como nenhum dos filhos, contra tudo e todos, culminando com o curso de Direito na USP, retrato da excelência do resultado. Foi abençoado com uma esposa que o completou de maneira cabal. Teve filhos de quem sempre se orgulhou e para quem sempre viveu, sou memória e testemunha viva disso. Trabalhador incansável, por prazer e por destino. Causa de atritos episódicos, detestava ficar longe dele, fosse o lazer qualquer. Político e administrador de vocação intestina, sofreu as injustiças inexoráveis da imaturidade do sistema para com um espírito idealista. Foi um dos exemplares de uma linhagem de grandes homens, que começaram de muito embaixo, recebendo o bastão daquela geração maravilhosa de heróis que chegaram ao país com a roupa do corpo, filhos na mão, coração apertado e a cabeça rodando, mistura louca de medo e esperança. Que abriram o caminho a golpes de foice, sangue, vermes, casebres, febres e muita raça. Pegaram esse bastão e nos entregam em almofadas de veludo, automóveis, casas com piscinas, colégios caros, viagens, enfim coisas que me fazem até envergonhado. Como cobertura de tudo isso, bens e patrimonio que nunca mexemos um dedo para merecer e que às vezes penso não merecermos mesmo. E, acreditem ou não, muitas vezes são fruto de discórdia e desentendimentos por valores ou quinhões.

Como eu dizia sou-lhe grato por muitas coisas. Obrigado por ela. Obrigado pelo carinho de segundo pai que sempre foi para mim. Obrigado pelo esforço hercúleo de formar este patrimonio que hoje tranquiliza sobremaneira a vida de todos, principalmente seu neto. Obrigado pelo exemplo de tenacidade e força que considero impossível de reproduzir. Obrigado finalmente pelo exemplo de bondade, perdoando a ingratidão de quem lhe deve muito. Termino com uma pontinha de inveja de seu filho e de sua assistente/secretária/amiga de todas horas, que conseguem sentir bem menos culpa do que eu.