segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

ROBERTO CARLOS - meu pitaco na religião

Acabei de acordar novamente no meio da noite, após um sonho. Estava num lugar grande, um estúdio de música, e conversava com nada mais, nada menos que com Roberto Carlos, o cantor. Cidadão diferente da imensa maioria dos mortais, prova inequívoca de que esta vida não nos garante as mesmas oportunidades e experiências. Não o tinha, como pessoa, em tão alto conceito como o que alcançou com sua música. Mas conversava com ele sobre trivialidades. Confirmando minha opinião, nada muito interessante. Acrescento aqui, para melhor entendimento do contexto do sonho,  que havia acabado  de ler um livro fantástico de um autor holandês, médico de um asilo de pacientes terminais, filósofo também de formação, e responsável, entre outras coisas no local, pelo processo de eutanásia dos que se dispusessem e se enquadrassem nas regras determinadas. Chama-se "Dançando com a morte", de Bert Keizer. Falarei sobre ele em outra ocasião. Mas mostrou que a consciência do final pode nos trazer esse insight e forneceu elementos para o sonho. Voltando a ele, em determinado momento Roberto falou sobre a grande fixação dele - Deus. Qualquer coisa. Trivial. Rotineira. Clichê. Deve usar com frequência. Muito provavelmente acredita mesmo nisso. Foi quando, misturando livro, sonho e eu mesmo, me peguei falando um caminhão de coisas pra ele que agora sinto vontade de passar para a frente. Desabafei com volúpia conceitos que, já faz algum tempo, eu queria deixar escrito. Meu insight sobre religião. 

Comecei já detonando Deus. Conceito nebuloso, promessa sem garantia, placebo evangélico e desnecessário. Vida eterna, reencarnação, paraíso, recompensas. Um pouco de cultura e vontade de pensar e a coisa toda meio que desmorona. Fé ? Esconderijo oportuno para nossos medos e fraquezas. Para a imensa multidão que nada na correnteza da vida, projeto mais que suficiente. Tanto é que a religião, qualquer delas, deita e rola. Importante, sim. Necessária também. Mas totalmente romântica. Conto de fadas. Então eu não vou falar de Deus. Pra não ofender ninguém. Mas também  porque acreditar nisso exige demais do meu limitado cérebro. Torço pra Ele existir, olha aí a minha fraqueza também, mas não posso deixar de dizer minha verdade pessoal - não temos poder intelectual para  saber. E, em meu atual estágio, nem preciso.

Falei de que então ? Bom, daquilo que eu venho lapidando na minha cabeça. No cara chamado Jesus Cristo. Ou na figura que inventaram com esse nome. Não me interessa. Se ele existiu mesmo, se foi inventado por Constantino, se foi casado com Madalena, se foi ou não perfeito, se fez o pão multiplicar, não interessa para mim. Prefiro até acreditar que foi mesmo um cara normal, que os milagres foram invenção pra vender melhor o cristianismo. O que foi muito louco foi o que disseram que ele falou. O que está em pequenos trechos da Bíblia, que eu nunca li. Nem preciso, pois a gente ouve tanta gente citar tais passagens que nem precisa ir até a fonte. As pessoas falam da Bíblia como falam de Deus. Como se tudo que está escrito ali fosse verdade absoluta. Defendem cada palavra sem nenhuma certeza real de como ela chegou ali. Multidão nadando na superfície. Um livro enorme, chato na maioria dos trechos, mas que, para mim, se resume em algumas passagens emblemáticas e duas idéias centrais. Bondade e aceitação. São as duas atitudes que, a meu ver, te levarão ao ponto mais próximo de felicidade que esta vida poderá te proporcionar. Tudo depende de ser bom. Mas o que é ser bom ? Quem pergunta isso não entendeu o ponto. Ser bom é ser bom.  NÃO FAÇA A NINGUÉM O QUE NÃO QUISER QUE FAÇAM A VOCÊ.  Simples. Resume tudo. O pequeno problema é que é quase impossível. Tão simples e quase tão impossível. E onde entra a nossa humanidade ? A nossa ganância ? A nossa prepotência ? A nossa inveja ? A nossa ânsia de poder ? De prazer ? Do apego às nossas posses? Uma das coisas mais certas que Jesus disse foi: é mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico encontrar a paz e a felicidade. Não se encontra a paz na defensiva de tentar manter sua posse. Rico é aquele que não tem e não precisa de nada ( CÃO DIÓGENES ). É muito mais fácil dividir o que se tem quando se tem pouco. Incrível e contraditório, mas real. Pobres dividem muito melhor que ricos. Penso sempre nos monges. Eles chegam perto, acho. Não na Igreja, vejam bem. Essa é outra história.

Temos também a aceitação. Quem consegue aceitar nossa real dimensão ? Somos pó, micróbios arrogantes, vulneráveis a partículas tão ínfimas que nos devíamos envergonhar - vide gripe suína, dengue, febre amarela. Não aceitamos doenças, não aceitamos dificuldades, não aceitamos os defeitos dos outros, não aceitamos nossas limitações. Não oferecemos a outra face. Bradamos por justiça com o pé na garganta do vizinho. Pedimos a Deus praticamente por tudo. Dinheiro, saúde, casa própria, emprego. Esbanjamos ansiedade, medo, revolta. Encontrei abrigo no estoicismo. Zenão, Sêneca, conceitos filosóficos de que a adversidade existe, sempre existiu e vai existir, o segredo é decidir como ela vai afetar você. A dor é inevitável, o sofrimento é opcional.

Jesus Cristo não foi o único. Minha formação ocidental e católica o deixou mais perto. Mas Maomé, Buda, Francisco de Assis, e, imagino, milhares ou milhões de desconhecidos no passar dos séculos, alcançaram o mesmo ponto. Muitos cidadãos mundanos, talvez em asilos ou hospitais, sacudidos e encurralados pela vida se esvaindo, também chegaram lá. Poucos, acredito, no burburinho da nossa rotina atual.

Roberto Carlos me serviu como bode expiatório. Coitado, pode ser até um cara legal. Mas entrou no meu sonho para simbolizar o rico da parábola de Jesus e ouvir meu sermão libertador. Você está muito longe da felicidade! Você chegou ao estágio que PARECE felicidade. Vida confortável, sucesso, fama, saúde. Mas está longe dela. Ao menos em meu desabafo onírico.

P.S. - post também antigo, finalizado agora.



































































D






















































A ÁRVORE DA VIDA

Gabriel Garcia Marquez, em seu livro "O amor nos tempos do cólera" dizia que o suicídio só se justifica quando for por amor. Como em qualquer pensamento literário, cada um interprete lá a sua maneira. Eu criei a minha. Nada a ver com as vias de fato. Tenho conceito bem formado a respeito dessa ideia. Não considero mais o suicídio uma opção válida em meu arsenal de ferramentas para uso na vida. Sinto-me à vontade para falar disso, já dei muito tempo meu em reflexões sobre o assunto e, principalmente, já estive lá. Não com a arma na mão, mas com a decisão feita. Desde então, após voltar atrás, formei meu conceito do que Marquez havia escrito. Nada de literalidade. O suicídio real é apenas uma fuga. Covarde. Arrogante. Burra. Indesculpável, mesmo que por amor. O cara que se mata é alguém que não entendeu nada. Acha que pode, que tem o poder. Acha que assim consegue se vingar de quem o machucou. Acha que a palavra final é dele. Se a reencarnação for realidade, e o cara tem que voltar tantas vezes quantas necessário para alcançar um grau mínimo de maturidade, o suicida não chega nem a entrar na fila. Volta nos calcanhares antes mesmo que o corpo esfrie. Começa tudo de novo, do zero. Merecidamente, diga-se.
Mas entendo o processo de elaboração de luto, que chamo de auto-suicídio. Você mata o seu eu anterior. Concordo com ele que deve acontecer apenas por amor. Ele não tem mais motivos para viver, já que só concebia a vida juntos.  Não há nenhum outro motivo de nobreza suficiente. Apenas pela perda de um grande amor. Aquele inexplicável por palavras, aquele que só quem vive sabe identificar. Se você se pergunta se está vivendo um grande amor, continue procurando. Quem está não precisa perguntar. Você sabe exatamente quando ele começou. Aquele momento quando sua vida anterior, suas ambições, planos, sonhos, deixaram de existir simplesmente porque foram sobrepujados, ultrapassados por algo mais. Não existirá mais eu, a partir de agora somos nós. Piegas sim, mas real para quem esteve lá. É na perda desse amor que Marquez aceita o suicídio, e eu entendo o auto suicídio. Quando perdido, perde-se o rumo. Corta-se as duas pernas em um só golpe. A queda é imediata, brutal, cruel. Não há opção para quem fica. Não há motivo que justifique a vida, não há graça mais nela. Temos que morrer junto. Aquele parceiro que ficou a ver navios não vai mais entender nem aceitar continuar vivendo. Deve morrer também. Ao menos em parte. Não deve morrer de todo. Isso seria fugir, seria querer ter o poder de decisão, é arrogante. Deve ficar um broto, uma muda de vida, que deverá ser cuidada, regada com infinita paciência e dedicação. Raquítica no começo, não se interessa por água ou comida. Quer morrer também. Mas não pode nem deve. Queira ou não, tem vida. E deve vivê-la. Outra planta, diferente, talvez transplantada até para outro lugar, se necessário. Mas vai viver. Precisa viver. Humildemente, aceitando essa vulnerabilidade existencial, ela vai descobrir que deve apreciar essa nova vida, com os mesmos princípios e valores que sempre usou para ser feliz antes. E, aos poucos, vai compreender que existem outras, várias vidas. Tantas quantas o responsável por essa experiencia o desejar. Vários caminhos que devem ser percorridos enquanto tivermos a oportunidade. E nos descobrimos nos auto suicidando em cada pequena mudança, em cada escolha. Morremos um pouco e nascemos do outro lado a cada nova encruzilhada. E, a cada nova decisão, aprendemos. Amadurecemos. E apreciamos cada vez mais as novas experiencias e choramos cada vez menos as perdas. Aprendemos a perder...

P.S. - post escrito há muito tempo, apenas finalizei agora. 

domingo, 11 de fevereiro de 2018

REVISTA CONTIGO

Viva!!  Após seis longos anos de inatividade e ausência, eis que me sinto novamente inspirado a  expressar minhas mazelas nestas páginas. Sempre motivado por conflitos que me são complicados na sustentação oral. Ergo frequente e exageradamente a voz, me perco na retórica e, muitas vezes, saio da linha principal com agressões verbais vulgares e desnecessárias. Péssimo advogado de tribunal, claro. Portanto, vamos tentar por aqui. Escrevendo e pensando cada palavra, uma por vez. Corrigindo o tom sempre que necessário.   
Revista Capricho, Contigo, Caras, etc. Dou este exemplo quando quero descrever aquele tipo de raciocínio desprezível e rasteiro da psicologia de boteco, das igrejas evangélicas e dos livros de auto ajuda barata,  quando são usadas duas expressões às quais abomino, que são "querer é poder" e "lute pelo seu amor". Ah, meu Deus, ai ai ai, quanta arrogância. Expressões que até podem ser entendidas em determinados contextos bastante específicos, quando talvez a letargia e a timidez estejam minando as chances do caso evoluir bem. Mas nunca podem ser usadas como leis gerais. Querer é poder me lembra a frase infeliz da Constituição Federal de 1.988 onde se lê : A saúde é direito de todos e dever do Estado. Ora, quem lê isso sem contexto, e praticamente todo mundo o faz, inclusive o Poder Judiciário, extrai a ideia de que o Estado vai lhe proporcionar obrigatoriamente tudo o que for necessário para sua saúde totalmente de graça. Ou não? Quem tem um mínimo de conhecimento da área, dos incríveis avanços tecnológicos mais recentes (eficazes ou não, diga-se de passagem), sabe que os custos são proibitivos para qualquer governo assumir completamente. É a base da enorme ineficiência atual do SUS,  obrigado a fornecer insumos e procedimentos extraordinariamente dispendiosos a quaisquer cidadãos que ingressarem com as medidas judiciais pertinentes (geralmente abastados o suficiente para conseguir com conhecimento e advogados especializados), enquanto milhares de pessoas mais necessitadas são privadas de tratamentos simples porque tais procedimentos são pessimamente remunerados e existem poucos abnegados que tenham interesse neles apenas pelo amor à arte. Querer é poder vai exatamente na mesma linha. Quero muito visitar a Lua. Quero cantar como Elis Regina, tocar violão como Almir Sater, ser rico como Bill Gates. Ora, mas o dito não pode ser entendido ao pé da letra. Bom, então não serve, deve ser mais específico, quem o vai usar é a plebe ignara, e ela vai entender ao pé da letra.
Chegamos então ao "lute por seu amor". A gente luta pela vida, pelo pão, pela saúde. Quem acha que tem que lutar pelo seu amor já o perdeu faz tempo... Na verdade, novamente o contexto, o ditado quase sempre está sendo usado para "lute pelo seu relacionamento, pelo seu namoro, pelo seu casamento..." Lute pela sua situação social, em outras palavras. Aí sim, podemos entender um pouco melhor. Fica mais real. Não deixe escapar seu contrato... Mas aí a coisa fica muito menos glamorosa.  Parece uma atitude de sobrevivência social. O que, de fato, é. Ninguém luta pelo amor. Amor é uma coisa que acontece, baseado em fatores tão diversos e imprevisíveis que seria muito tolo tentar mantê-los sob controle. Tentar controlar o celular, não deixar isso e aquilo, ficar seguindo, indagando, fazendo, enfim, o papel ridículo de alguém sem qualquer confiança de que seja a pessoa eleita pelo parceiro como aquela a quem ele escolheu para viver, só demonstra que ela realmente não tem as qualidades necessárias. Pelo menos para mim.
Ah, mas podemos cair em tentação, quanto mais pudermos evitar, menos teremos que chorar depois. Até concordo, nosso contrato social, no campo sexual, é bastante controverso. O homem, como espécie, tem no macho um predador que tende a espalhar sua genética para o maior número possível de fêmeas, como instinto de manutenção de um clã confiável e forte. As fêmeas procuram machos fortes para gerar e proteger sua prole. Instintivamente, portanto, a monogamia seria apenas feminina. Talvez assim o entendam os muçulmanos e os mórmons. Mas o contrato social da civilização ocidental através dos tempos sempre foi eminentemente monogâmico. Assim, quando formalizados os pares através do contrato de casamento ou, atualmente, união estável, os instintos masculinos deverão ser domados e dominados em prol da convivência harmônica do casal. Aí começa a bagunça. Não devo estar muito longe da verdade quando digo, baseado em observação pessoal, que a imensa maioria dos casais existentes em nossa sociedade, sobrevivem mais pelo contrato do que pelo amor. Nesse contexto, brecar o instinto se torna cada vez mais complicado. Em nosso mundo atual, onde a palavra, o fio do bigode, o compromisso e os princípios são, cada vez mais, conceitos etéreos, acadêmicos, onde o que vale mesmo é o hedonismo em sua forma mais vulgar, o prazer sexual masculino emerge como fonte inesgotável de experiencias e, consequentemente, de encrencas no lar. Apenas para piorar, a mulher atual, em sua rota recente de masculinização,  resolve deixar a posição passiva de se embelezar e esperar pacientemente atrair alguém supostamente melhor que seu parceiro atual, e começa a agir de maneira ativa, abordando com maior desenvoltura os possíveis candidatos. Daí, provavelmente e para completar a absoluta mediocridade da coisa, vem a atitude da parceira legal, indefesa e ameaçada, de "lutar pelo seu amor"... Ora, esse amor que cai nessa esparrela não é seu amor. Pode ser seu marido, seu namorado, seu "união estável" , mas não é seu amor. Reconheço que na maioria dos casos não é amor mesmo. Mas aí, a discussão é outra. Vale a pena ficar juntos apenas pelo contrato, pelos filhos, pela situação social? Cada um deve procurar sua resposta em si mesmo, em seu relacionamento. No caso de seu amor ser realmente seu amor, ele vai ser imune a tais investidas. Não porque ele não tenha vontade, lembrem-se do instinto... Mas porque, quem ama mesmo, já escolheu seu caminho. E, enquanto durar esse amor, esse caminho vai ser respeitado. Independe da atitude de terceiros. E, se esse caminho for desrespeitado, esquece, seu amor acabou. Fica o contrato e, novamente, você pode sim lutar por ele, mas é uma atitude puramente social. A meu ver, pobre e digna de pena. Tenho uma grande reserva com aqueles que tentam sustentar o insustentável, como se não tivessem capacidade para serem indivíduos, independentes e capazes. Uma união é feita de dois indivíduos, com princípios e limites, uma verdadeira simbiose e não de seres parasitas, que se não forem alimentados pelo outro perecem.
Chego aos cinquenta e nove anos em breve, e tenho algumas coisas das quais me orgulho. Convivo diariamente com a sociedade retratada nas linhas acima. Confesso que minha escolha foi mais difícil no começo, briguei um pouco para ser uma exceção (também posso estar enganado, muitos falam coisas que talvez nem façam, só para ficar bem nessa fita social hipócrita). Mas hoje, e já há muito tempo, sou tranquilo em relação à isso. Tanto por mim quanto por ela. Passei muito tempo achando que um dia aconteceria comigo, sou um eterno pessimista, quero sempre estar preparado para o pior. Mas nunca entrei nessa de tentar proibir, vigiar, controlar. Que sera sera... Mas gostaria que fosse recíproco. Afinal, não adianta nada...


P.S. - Ai, ai, depois de ficar animado e gastar massa cinzenta tentando retomar os posts, a gente lembra que tudo aquilo falado acima já foi dito, e de maneira muito mais bela e precisa, por um de nossos ídolos. Segue abaixo a obra prima....



Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento antes,
E com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto,
E rir meu riso e derramar meu pranto
ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive
e quem sabe a solidão, fim de quem ama,

eu possa me dizer do amor (que tive):
que não seja imortal, posto que é chama
                 mas que seja infinito enquanto dure.











 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

UM PENSAMENTO SOLTO

Várias vezes já pensei em escrever isto, mas nunca deu certo. Acho que não tenho cacoete mesmo para escrever sempre, tem que estar inspirado e o computador precisa estar por perto. Nem mesmo sei se já não escrevi tudo isso, porque já faz algum tempo que não releio minha caraminholas. Posso até já estar meio gagá e ficar repetindo sempre a mesma história mas, como este blog é apenas minha terapia gratuita, não reclamem. Aqui vai.

Tenho para comigo que Deus fez da vida dos homens apenas uma caminhada. Muitas vezes longa, às vezes curta demais.Um caminho em que ninguém consegue enxergar ao longe, como se estivéssemos em trilhas ao longo de uma densa e alta floresta. A cada trecho, entramos numa encruzilhada, com várias novas opções de trilhas diferentes. Nosso único parâmetro de escolha, naquele momento, é a inclinação que se avista de seu começo. Podemos apenas subir ou descer. Assim nos mantemos enquanto vivendo. A medida em que iniciamos cada trilha escolhida, passamos por locais e sensações variadas, boas e ruins. Evidente que, quanto mais trilhas percorremos, mais experientes ficamos e mais aprendemos sobre nossas escolhas.

Do alto de meus cinquenta e tantos anos, eis o que extraí de minhas trilhas e de observar as trilhas de quem segue próximo a mim. Pra chegar lá em cima, no topo, tem que subir. Ridículo, de tão óbvio, mas é interessante como muita gente, seja por comodismo, seja por não entender, prefere sempre descer. Alguns privilegiados, sabe-se lá por obra de quem, já nascem muito mais perto do topo. Ainda assim, mesmo com pouca subida pela frente, preferem descer. Outros, mais azarados, dão a largada perto do fundo do poço. Uma longa subida, que os desanima logo de saída. Preferem ficar lá por baixo mesmo e, na maioria das vezes, descer até o fim (com altíssima chance de interromper a jornada prematuramente). Quem desce e se arrepende depois, tem que subir o dobro na volta, sofrendo também duplamente, por estarem muito mais velhos e com as pernas cansadas. Muito difícil. Melhor subir enquanto jovens, no vigor da adolescência. Claro que muitos, seja lá de onde partirem, sabem que não se arrependerão da suadeira da escalada. "No pain, no gain", sábias palavras de Ben Franklin (segundo o Google). O topo é um lugar mítico, inalcançável, mas, quanto mais nos aproximamos, mais perto chegamos daquilo que Buda descreveu como Nirvana.

Um dos grandes objetivos desta vida, já o disse, deveria ser o de se tentar prover meios para que nossos descendentes sejam melhores do que nós mesmos. Não existe melhor jeito do que repassar experiência. Meus filhos estão numa fase onde as encruzilhadas lhes chegam a cada trecho muito curto, provocando inúmeras dúvidas e muita insegurança. Cada escolha já feita os ajudarão nas seguintes. Mas ainda faltam muitas à frente. Que eles já tenham entendido que a subida é sempre a melhor escolha. Até o Nirvana.








domingo, 4 de setembro de 2011

MEU ABRAÇO MASCULINO (antes tarde do que nunca)

Tive notícias suas recentemente. Novidades, achei que eram só fofocas. Claro que não por seu intermédio, são muito pessoais e você não costuma, desde pequenina, dividir sua intimidade comigo. Minha culpa, eu sei, defeito grave este que eu tenho de não abrir portas para conversas sobre sentimentos, ainda que singelos, como frustrações ou sonhos. Quanto mais dúvidas e reflexões mais perenes, de alcance mais longo. Talvez venha de meus pais, geração menos acostumada ou mesmo pouco preparada para compartilhar tais experiências. De qualquer modo, chegou-me por terceiros. Pouco importa quem, não vamos matar o mensageiro. Importa mais o que significa, o que vai significar para nós e, principalmente para você.

Pensando bem, não se pode dizer que seja surpresa. Você sempre deu a entender que seu caminho não seguia pelo leito do rio, nadando no embalo da correnteza. Quantas vezes tivemos esta conversa. Desnecessário repeti-la. Todos somos iguais na massa, a modelagem é que nos diferencia. Como vimos hoje, os genes sempre serão diferentes entre todos nós. Genes e ambiente. Genótipo e fenótipo. Foi bom estarmos juntos, mais ainda quando eu soube que você sabe que eu já sei. Nada tem que mudar agora, talvez apenas o fato de que você pode ficar mais tranquila. Eu andei lendo literatura pseudo científica a respeito do assunto e parece que existe angústia na dúvida e solidão na certeza. Assim como vai existir uma angústia e uma solidão inicial em nós, na elaboração dos sentimentos, na dificuldade da inexperiência e na sensação de incerteza a respeito do futuro. Todos precisaremos de ajuda. E todos teremos que nos ajudar.

Ainda não consigo deixar de pensar quanto disso é isso mesmo. Você sabe, minha teoria sobre a vida é a de que eu faço tudo e confronto todos para manter minha paz. Sacrifico talvez coisas que outros não o fariam só para não ter que dar explicações ou ouvir críticas. Paz é a minha ideia de felicidade. Críticas são o meu pesadelo. Odeio ser admoestado se estiver errado, por isso tento me manter na linha. Flerto com o asceticismo e amealho o pecúlio cobrado pela sociedade. Admiro Diógenes e abarroto meu guarda roupa de grife. Apenas para não confrontar. Mesmo assim, acabo sempre me envolvendo em discussões teóricas filosóficas estéreis por causa desta eterna contradição. Talvez por sempre desviar de certos princípios apenas para não ter que "ser diferente", sempre achei complicado quem escolhe voluntariamente andar na contra mão, seja nos princípios, seja nas opções de vida. Muito trabalho pro meu gosto. Penso mesmo que não somos dignos de tal poder. Sem maldade, como você diz, acho um pouco até de arrogância. Meio assim, sabe, alguém me fez assim, mas eu não concordo e quero ser assado. E, como temos o poder da escolha, do livre arbítrio, serei como eu quero ser. Talvez eu não concorde porque eu não tenho tanta certeza assim de quem eu sou e o que eu quero tanto ser. Acho mesmo que eu seria qualquer outra coisa se não fosse eu mesmo. Seria negro, esquimó ou mulher, se tivesse assim nascido. E seria até gay, se todo mundo também fosse. Apenas para não confrontar. Apenas não cederia, como não o faço agora, em princípios que considero essenciais, como honestidade, caráter, lealdade, bondade, e respeito ao próximo. Não serei corrupto, arrogante, egoísta, ingrato, perverso e desleal apenas para seguir a maioria. Aí está o meu limite.

Além disso, há perdas consideráveis. Passa-me pela cabeça o que a natureza vai perder. Crescei e multiplicai, foi-nos dito. Ainda na toada anterior, isso é mais ou menos tudo o que viemos fazer aqui. Claro que, se possível, multiplicar com qualidade, passando nossa experiência para os que vierem, para que cresçam e sejam melhores que nós. Fazendo isso, e vivendo em paz, fazendo para os outros apenas aquilo que gostaríamos que os outros fizessem por nós, acho que seremos felizes o que dá pra ser.

Independente do que acontecerá daqui a vinte anos, agora e sempre estaremos juntos. Para leste ou para oeste. Nada deve ser definitivo na sua idade. Nem nunca. Como eu já disse, pouco falta para decidirmos por você, seremos apenas amigos daqui por diante. E amigos, se amigos, apoiam-se mutuamente. Então, se no final essa for mesmo a sua maneira de ser feliz, estaremos juntos torcendo e brigando, remando contra a maré, dando bananas para a torcida. Contanto que você esteja feliz.






















terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A LAMPARINA, A BÚSSOLA E O CAVALO

Tive mais um sonho. Desta vez horrível. Sonhei com a morte. Duas princesas. Dois sonhos diferentes. Acordei em prantos, com ela em meus braços, eu pedindo pra que ela nunca se esquecesse que , bem , deixa pra lá. Não quero começar a chorar de novo.

Tenho três filhos. Piegas falar que são lindos. Mas são. São tudo. Junto com a mãe, ocupam praticamente todo o meu coração. Não tenho outra coisa pra fazer na vida do que cuidar deles. Faço meu papel de pai, oriento, ensino, brigo enquanto há tempo. Tudo pra tentar fazer o caminho mais fácil. Mas, naquela hora, eu tive aquele estalo que me torturou depois de acordado. Você talvez tenha sido um bom pai no quesito educar, orientar, cuidar. Mas você contou pra eles o quanto os ama? Eles sabem disso? Sabem o quanto são importantes pra você, o quanto você tem medo de que algo lhes aconteça, o quanto você tem medo de ficar sem eles? A resposta foi essa. Torturantemente não. Não sei fazer bem isso. Vou fazê-lo sem falta quando o dia raiar, e elas acordarem. Mas tenho certeza que, com o passar do tempo, vou deixar de fazê-lo todos os dias. E então, lá na frente, muito ou pouco, vou me arrepender de novo. Por ter esquecido ou deixado pra outra hora. Então acordei e decidi deixar aqui escrito. Talvez eles nem olhem, com certeza não todos os dias. Mas estará aqui escrito, com medo e lágrimas, vindo do que de melhor existe em mim. Nada nesta vida tem importância maior para mim do que vocês. Posso ter passado a vida fazendo coisas que parecem estar muito distantes disso. Mas podem ter certeza que não. Qualquer coisa que vocês pensarem agora teria sido interrompida imediatamente por um chamado de perigo, de socorro, de ajuda.

O primeiro foi sempre um príncipe. Sangue nobre, educação, estilo, finos modos. Dito assim parece afetado. Mas não. Como a mãe, consegue ser tudo isso de maneira irritantemente natural. Convive com a plebe ignara flatulenta e desbocada sem se contaminar, mas também sem se segregar. Às vezes penso que não tem nada de mim. Nem fico triste porque fez melhor negócio puxando pela mãe. E o mais incrível é que isso aconteceu sem a convivência. Veio no sangue mesmo. Mas, o que de melhor ele recebeu dela foi essa capacidade de detectar caminhos. Enxergar mais longe que os outros, entender de relance cada situação, analisar o que está em cada comportamento, cada reação. E traçar o rumo mais coerente, de mais bom senso. Torna-se aquela pessoa que sempre vale a pena consultar quando se está perdido.

A segunda é a princesa. Na mais pura acepção da palavra. Desperdiçada nessa vida plebéia, assenta-lhe muito melhor um palácio. Linda, iluminada, irradia luz. Perto dela a vida fica essencialmente bela, as coisas são coloridas, o mundo sorri. Não nasceu para ficar triste nem sofrer. Poderia e deveria ter o nome da avó, "alegria da vida". Tenho a certeza de que veio para iluminar o caminho, para mostrar a beleza de tudo. Quem me conhece sabe que isso não veio de mim. Veio também da mãe. Minha concepção pessoal é mais bruta, sou o boi que carrega o arado. Preciso delas para enxergar o belo. Muitas vezes eu não enxergo nem isso direito. Mas elas trazem a alegria em nossas vidas.

A terceira é a guerreira. Forte, companheira, escudeira fiel. Pronta para vencer desafios. Às vezes voluntariosa, impaciente, teimosa. Mas, no fundo, extremamente meiga, preocupada, amorosa. Seu coração é enorme. Sua têmpera é de aço. Sua energia é imensa. Acho que tem um pouco de mim. Pra sua sorte ou azar, não sei. Mas tenham os outros esta certeza. Se um dia vocês estiverem em algum buraco sujo, presos numa armadilha ou afundando em areia movediça, é ela quem vai chegar primeiro, sempre. E é provavelmente ela quem vai tirá-lo de lá.


Meus filhos, não se esqueçam nunca disso. Vocês são minha vida e eu amo muito vocês. Deus há de me dar a graça de sofrer o que senti hoje apenas em sonhos ruins.

domingo, 10 de janeiro de 2010

VALEU A PENA ?

Uma das coisas que me incomoda nesta vida moderna é a quantidade de vezes que nos deparamos com a necessidade de presentear alguém. Durante um ano corrido, a civilização ocidental conhecida nos impinge inúmeras ocasiões nas quais somos compelidos a dar alguma coisa a alguém pela tradição, real ou provocada pela mídia social. Imagine quantas pessoas fazem parte do seu círculo social, próximo e não próximo. Natal, Dia das Mães, dos Pais, das crianças. E todo mundo faz aniversário. E, segundo os costumes, merecem ganhar alguma coisa por isso. Como antigamente ninguém tinha muita coisa, ficava fácil agradar à vítima. Lembro-me de ter ouvido falar de presentes interessantes como uma mala de viagem, guarda-chuva, óculos, uma cama nova, objetos de cozinha e costura, peças de roupas e ferramentas. Tudo agradava numa época em que tais coisas eram raras e caras. Relógios eram muito apreciados pelos que ainda não o tinham. Valia a pena o gasto. Era uma maneira de se dar algo que FALTAVA a alguém.
Hoje a coisa mudou muito. Tais objetos não são considerados presentes, são como obrigações. Neste mundo atual, tornou-se obsoleta a ideia de que alguém, em nosso meio, não tenha um relógio, uma mala, qualquer peça de roupa. Ninguém PRECISA mesmo de nada. Entrou em jogo a alternativa, para mim odiosa, da QUANTIDADE, das cores e dos modelos. Variar para agradar. Ou então entrar na dança dos cds, dvds, livros. Quantos cds e dvds você tem? Quantas vezes você já ouviu cada um deles, se é que já ouviu alguma vez? Se já, então não leu os livros. Se já também, parabéns. Você é provavelmente um dos meus ídolos que conseguiu se virar na vida sem ter que trabalhar muito. De qualquer maneira, como eu detesto jogar dinheiro fora, já que detesto ter que ganhá-lo, considero um enorme incômodo a obrigação social de comprar alguma coisa para alguém, sabendo que existe uma chance estatisticamente significativa de que esta pessoa não precise daquilo, já a tenha, ou que não vai lhe ser de utilidade. Provavelmente vai acabar na mão de algum outro incauto na próxima oportunidade. Perco meu tempo tentando ser original e acabo me irritando ou desistindo. Podem me chamar, como vários o fazem, de muquirana, mas eu sei que gosto muito da sensação de dar algo a alguém que precisa. Sobra-me então presentear os menos favorecidos.

Isso pode ser considerado um exemplo cabal da minha teoria sobre a vida moderna. Essa avalanche de estímulos de mídia para o consumo desenfreado. Tudo em nome do ... Do que mesmo? Para que isso tudo? Progresso? Capitalismo? Alguém, em sã consciência, acredita mesmo que as pessoas estão mais felizes, a medida em que os anos passam? Eu não tenho mais dúvida que não. Cada dia, cada mês e cada ano que passa eu sinto nitidamente aumentar a quantidade de pessoas ao meu redor desestabilizadas, confusas, perdidas em um redemoinho de pressão social e financeira, comprometendo e mesmo arruinando emocionalmente suas vidas. É uma queixa crescente e de difícil solução. O que aconselhar ? Como se briga com o mundo?
Lembro-me agora de uma frase de um psicólogo famoso, ouvida há muito tempo atrás, e que nunca me saiu da cabeça. "O mundo atual é um trem em alta velocidade e que aumenta cada vez mais. O que pouca gente percebeu é que este trem não tem maquinista...".
Cinquenta anos se passaram em minha vida e as dúvidas só aumentaram. Existem pessoas que acreditam que tudo se acaba aqui, ao menos para nossa compreensão limitada. Outras, que existe alguma coisa. Paraíso, céu, nirvana, reencarnação. Durante muito tempo eu vivi indiferente. Seja lá o que for, quando chegar o dia eu descubro. Na medida em que o tempo passou e a turma de lá começou a ficar interessante, uma tendência a se acreditar em uma continuação foi aumentando. Assim, o que eu encontro hoje para falar para essas pessoas perdidas e confusas neste trem em disparada é o seguinte. Quando você presenteia alguém com alguma coisa, o que você espera ? Que a pessoa aproveite bem aquele presente, que ele proporcione algum prazer, que lhe dê alguma felicidade, não é ? Nada mais natural. Pois bem, vamos supor que os crédulos tenham razão e algum dia, em alguma hora, você vai chegar na frente do cara que fez tudo isso aqui. Ele vai dizer : Olha, eu te dei uma vida. Um presente. Um corpo, cinco sentidos, saúde por longo tempo, te dei um mundo com ar, água, plantas, árvores, música, chance de correr, rir, amar, ensinar e aprender. O que você fez com isso ? Aproveitou bem ? Foi feliz ? Riu e amou bastante ?

Não passo um dia sequer sem pensar no que vou falar nessa hora.